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Ruy
Barreto
Vespasiano
/ MG
O
menino e o sol
Meu pai, pode esse sol
Secar o pão que rega a mesa
O frondoso tronco da árvore
E o verde que brota na roça?
Sim,
meu filho.
Esse sol que pende das nuvens,
Seca o minguado pão na mesa,
O tronco e o verde da roça
E muito, muito mais que se possa.
Meu
pai, pode esse sol,
Beber toda a água dos rios
Deixar desertos os sertões
E sugar a vida das nascentes?
Sim,
meu filho.
Esse sol que vigia as nuvens
Planta a morte nos sertões
Beba a água dos rios e nascentes
E ainda faz de nós penitentes.
Meu
pai, pode esse sol,
Ser tão belo e tão doído
Fugir com levas de homens
E fazer carcaça de um parente?
Sim,
meu filho.
Esse sol que habita as nuvens,
Que é belo o tanto que dói
E destrói homens e entes;
Mata muito, muito mais gente.
Meu
pai, se pode esse sol,
Secar o verde e a água
E fazer carcaça de gente,
Pode, meu pai, esse sol,
Tornar o homem descrente?
Não,
meu filho.
Esse sol, por mais que atine o homem
Lhe tire sertões e comida,
Filhos, entes e mulher,
Não há sol que faça o homem,
Perder a crença se tem fé.
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