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Ruy Barreto
Vespasiano / MG

O menino e o sol


Meu pai, pode esse sol
Secar o pão que rega a mesa
O frondoso tronco da árvore
E o verde que brota na roça?

Sim, meu filho.
Esse sol que pende das nuvens,
Seca o minguado pão na mesa,
O tronco e o verde da roça
E muito, muito mais que se possa.

Meu pai, pode esse sol,
Beber toda a água dos rios
Deixar desertos os sertões
E sugar a vida das nascentes?

Sim, meu filho.
Esse sol que vigia as nuvens
Planta a morte nos sertões
Beba a água dos rios e nascentes
E ainda faz de nós penitentes.

Meu pai, pode esse sol,
Ser tão belo e tão doído
Fugir com levas de homens
E fazer carcaça de um parente?

Sim, meu filho.
Esse sol que habita as nuvens,
Que é belo o tanto que dói
E destrói homens e entes;
Mata muito, muito mais gente.

Meu pai, se pode esse sol,
Secar o verde e a água
E fazer carcaça de gente,
Pode, meu pai, esse sol,
Tornar o homem descrente?

Não, meu filho.
Esse sol, por mais que atine o homem
Lhe tire sertões e comida,
Filhos, entes e mulher,
Não há sol que faça o homem,
Perder a crença se tem fé.

 
     
 
Publicado na Antologia de Poetas Brasileiros - Volume 51 - Dezembro de 2008