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Allan Pitz
Rio de Janeiro / RJ

A noite do canalha

Naquela noite eu era o outro...
Era o canalha na porta dos fundos
O cretino que rouba teu jornal.
O assistente tão esperado do Capeta;
A crise na bolsa e o bacanal.

Daquela vez eu bebi sangue...
Tomei um porre com o DNA do bode
Rezei a Deus por meu fígado angelical
Supliquei a Moisés que me ensinasse;
A transformar um deserto em milharal

E voltei pelo meio do fogo...
Fui cachorro velho esboçando latido
Me queimei na bandeira do meu partido
Desisti de ser filho e ser pai; trocando sim por jamais;
E me rendendo a um hipotético talvez.

Votei Gabeira e virei encosto
Joguei pro alto caiu no rosto
Pensei demais e fui deposto;
Virei maluco depois dos dezoito...
Então seria melhor não pensar?!

Quero dizer que a máscara não esconde a alma
Que tua ilusão minha voz não cala
E que enquanto eu viver olharei pro céu...

Mas Naquela noite eu era o outro...
Eu fui o moleque que fecundava o piso
Saboreava a dentista gostosa que me arrancava o Siso,
Era o vagabundo, o artista sem juízo
Mil demônios a soprar no ouvido;
E uma puta vontade de vomitar.

Naquela noite eu era o outro...

 
     
 
Publicado na Antologia de Poetas Brasileiros - Volume 50 - Novembro de 2008