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Vanderlei
de Souza
São
Paulo / SP
Poeminha
gramatical (à moda de Millôr)
Naquela manhã, o verbo acordou anômalo.
Depois de alguns exercícios matinais, três flexões
e outros adnominais,
Notou pela primeira vez que o modo com que lidava com o tempo
Causava certa confusão em sua pessoa.
Era um claro indicativo de que o objeto de seu desejo, Norma Culta,
Não mais o complementava em gênero, número ou
grau.
Substancialmente, não ligava mais para seus predicativos.
Seria cômico não fosse gramático, seria fonético
não fosse sintático.
Sentiu-se desfalecer, perder os sentidos
E após um breve período simples, Em que dirigia suas
preces e orações
Descoordenadas ao Pai da Lingüística, Ferdinando.
Chegou a um bom termo, essencial para sua existência naquele
contexto
Mudar-se-ia da cidade grande, de onde não colhia poesia, onde
tudo era concreto,
Onde enfrentava o transitismo direto, devido às obras literárias
do metrô
A produzir ruídos onomatopaicos irritantes a causar desvios
da norma nas avenidas.
Ruas de duplo sentido, onde espreitam sujeitos ocultos em cada esquina;
Vícios de linguagem nos pontos e vírgula de ônibus;
Vandalismo e barbarismo nos muros; cacófatos junto aos semáforos
Além da convivência com estrangeirismos inaceitáveis
nos bairros, periferias e perífrases.
Ainda que não fosse abundante e algumas adversativas obliterassem
seus propósitos,
o verbo expressava seu desejo de refugiar-se no campo semântico,
para respirar novas metáforas, e cultivar prosopopéias.
Tiraria uma licença poética para além da materialidade
lingüística,
A buscar novos significados e significantes para a vida,
Que até então teria sido substantivamente subordinada
às regras sociais e gramaticais.
Viveria feliz para sempre até que a morte do autor o separasse
para sempre de seu papel.
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