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Alice Venturi Rodrigues
Rio de
Janeiro / RJ
Alguma
mágoa
Vinha
trazendo no coração uma mágoa antiga que só
fazia doer. Não sabia o que fazer com ela. E como apertava.
E como doía. Ficava ela ali no canto esquerdo, bem quieta.
Dava os ares de sua graça nas horas mais impensáveis.
E como manchava. E como mexia. Pulava no peito como bola desgovernada
que desce a ladeira sem olhar para os lados. Queria esquecê-la.
Queria traí-la. Trancá-la lá fora sem pena da
chuva. Deixando-a molhar como pano de porta, que sem borda aos poucos
se encharca. Queria poder juntá-la com as mãos e com
desespero de marujo perdido, arrancá-la para fora do barco.
Deixá-la a deriva em companhia das ondas. Ela que se salvasse.
Que se afogasse lentamente na imensidão fria dos mares. De
longe eu acenaria em meu iate invencível. Lamentando por não
ter feito isso há mais tempo. Feliz por ter extirpado todo
o tumor. Chegaria em casa tranqüila, talvez cansada da viagem.
Tomaria uma Novalgina e iria cheia de graça pra cama. Sonharia
com cores impossíveis e palavras ainda perdidas. Acordaria
plena. Descansada. Completamente feliz. Escreveria meus versos roubados
do invisível e ouviria os sons capturados do mundo. Prosseguiria
vivendo à procura do irreal e do permitido. E seria feliz se
não fosse a falta que se alojaria no peito clamando pela mágoa
uma vez perdida, a reclamar junto com a lua sua ausência.
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