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David Manuel Gomes Amorim
Viseu / Portugal

O homem biológico


Muitas vezes me pergunto
Porque o céu é tão distante
A lua tão fascinante
O sol tão brilhante?
Mas o palco é variante
No teatro radiante
Deste mundo desconcertante

Quem nos dá o libreto da vida ?
Quem nos transforma em actores?
Quem nos acorrenta às cenas e horrores
E aos constantes despudores
Deste quotidiano mecanizado
Desumanizado !
Massificado !

Vive-se na mediocridade dos actos
Da montagem de artefactos.
Esquece-se a vida
Que se torna pervertida.
Ouvem-se os latidos
Dos que são banidos
Por todos os lados.

Falam-me de liberdade
Tentaram a revolução
Existe a religião.
Mas o homem segue sua evolução
Com augúrios de excepção
Lembrando a extinta escravidão
Que parece lhe deixou saudade!

Como pode acontecer a alguém
Nascer e morrer sem conhecer
A cultura do presente e do passado!
Morrer sem viver ou saber
Quem é Bach ou Da Vinci
Dali ou Picasso, o Prado ou o Louvre?
Ir a enterrar sem ver o mar
Nem sequer o imaginar
Sem sequer o abraçar!!

Isso será certamente morrer sem ter nascido
Acordar sem ter adormecido
Desaparecer sem ter surgido.
Será o homem biológico
O transformador poluente
Que a vida consente.

 
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Publicado na Antologia de Poetas Brasileiros - Volume 47 - Julho de 2008