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Maria de Fátima Almeida

Surubim / PE

Minha boca é um túmulo

"Minha boca é um túmulo"
Fuxiqueiro fala assim:
— Levo segredo pra tumba,
Pode revelar pra mim.

Não querendo falar nada
E ao mesmo tempo dizendo,
Chega a vizinha Maroca
Apressada e se roendo.
Pra falar da vida alheia
Dela não tem a pareia
Fala até do reverendo.

Que sua boca é um túmulo,
É papo pra boi dormir.
Fala de Deus e o mundo
Depois não quer assumir.

Vai destilando veneno
Só diz o que não convém
Quem tem grana é enxerido
Quem não tem é Zé ninguém.
Dá com a língua nos dentes
E fala mal dos parentes,
De gente estranha também.

Malvada solta mais uma:
— Peguei Zé com uma mulata
Não vou me meter no assunto
Mas se for mentira eu lata.

Maroca quando morrer
Seu corpo vai num caixão,
A língua vai na carreta
Já vai pedindo perdão.
Implorando pra São Pedro
E se tremendo de medo
Do porteiro dizer não.

 
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Publicado na Antologia de Poetas Brasileiros - Volume 45 - Maio de 2008