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Contistas publicados
 
 

 

Ana Joaquina de Oliveira Cruz
São Luís / MA

     
 

O Enigma

Conto publicado no volume 2 da Antologia de Contos Fantásticos / CBJE

Sou repórter, trabalho em um grande jornal e costumava cobrir pequenos casos, até receber uma ligação durante a madrugada. Era o meu editor, dizendo que eu deveria estar no cais do porto às seis da manhã.

Estranhei o fato e perguntei o que havia acontecido e como resposta ele disse que eu deveria pegar o primeiro barco em direção à cidade de Alcântara. Meu instinto avisou-me que eu teria o meu primeiro grande caso.

Ansiosa, não consegui mais dormir, então arrumei uma bolsa de viagem com algumas roupas, minha câmera e alguns apetrechos indispensáveis a um bom trabalho.

Cheguei pontualmente ao local combinado e José Roberto já havia comprado as passagens. Fui informada que iria cobrir um estranho crime naquela cidade turística e que uma equipe de legistas, policiais e alguns fotógrafos já estavam na cidade.

Eu iria com um detetive, um tipo arrogante e cínico que mediu-me dos pés à cabeça e falou em voz alta meu nome - Nina Cavalcante. Não fiz por menos e em tom sarcástico falei o seu nome - Ricardo Talvani, o famoso detetive!

Embarcamos e em menos de uma hora já estávamos na cidade. Seguimos diretamente para o local do crime, um antigo casarão, que no passado abrigou em seus porões centenas de escravos traficados da África. Ao passarmos pela imensa porta, senti um estranho calafrio. Devido a uma série de imprevistos burocráticos, o corpo ainda estava no mesmo local. Em anos de trabalho, eu nunca havia presenciado algo parecido! O cadáver apresentava uma coloração esverdeada, incontáveis hematomas e centenas de minúsculas perfurações. Tive a impressão de que haviam sugado até a última gota de seu sangue. Em sua testa estava gravado a ferro quente um estranho símbolo e na parede uma palavra escrita com sangue se repetia, parecia um dialeto africano ancestral. Comecei a fotografar tudo e avistei uma porta meio escondida que conduzia ao porão da casa. Desci as escadas e em meio a sufocante escuridão, vi um vulto luminoso e outros mais que me cercaram. Então desfaleci e acordei nos braços de Talvani que parecia muito preocupado, mas ao me encarar demonstrou ironia. Perguntou-me o que havia acontecido e eu disfarcei, dizendo que passara mal devido à viagem, mas Talvani percebera a minha mentira, encarando-me com aquele olhar sarcástico. Logo o corpo foi levado e decidimos revistar o local em busca de alguma pista que levasse ao assassino. Nada encontramos e como o local não possuía instalações elétricas, voltamos ao hotel para buscar lanternas e outros equipamentos. Assim, meio a contragosto, tive que voltar ao tétrico porão, onde avistamos terríveis aparelhos de tortura, correntes, alguns móveis antigos, quadros, muitas fotografias que pareciam datar do século XIX, vários baús contendo trajes de época e muita poeira. O ar era muito abafado e depois de revistar tudo, nada encontramos de relevante. Decidimos ir embora e disfarçadamente coloquei algumas fotografias e correspondências amareladas na minha pasta.

No hotel, fomos informados de que um funcionário do consulado de Gana viria para identificar o símbolo e decifrar a palavra escrita na parede. Somente bem mais tarde, lembrei dos objetos que trouxera do casarão e curiosa, corri para o quarto. Ao olhar as fotografias, fiquei gelada, pois pude identificar os vultos do porão! Uma jovem, um homem de porte altivo e uma mulher com ar sofrido. Nas outras fotografias, reconheci os outros.

Muitos escravos e todos apresentavam na testa o mesmo estigma encontrado no cadáver. Entrei em desespero e corri até o quarto de Talvani, onde entrei sem bater. Como sempre, ele ironizou a situação, mas eu estava tão assustada que logo ele estava ao meu lado analisando as fotos e os documentos que eu havia levado. Descobrimos que eram papéis de posse dos escravos e que aquele símbolo, era o brasão da família Albuquerque, que na época era proprietária de metade da cidade e possuidora de centenas de escravos e segundo soubemos através de antigos jornais, eram torturados até a morte por motivos banais. O homem assassinado era João Albuquerque, único descendente vivo daquela poderosa família, os outros todos haviam falecido de forma trágica.

No dia seguinte, o funcionário do consulado de Gana chegou à cidade e ao ler a inscrição na parede, demonstrou surpresa. A palavra, disse ele, estava escrita em um dialeto muito antigo e significava vingança! Eu e Talvani entreolhamo-nos e decidimos voltar ao porão para tentar decifrar o enigma. Encontramos um baú e dentro dele, um medalhão, um diário e uma caixa. No medalhão, duas pequenas fotografias, uma mostrava a jovem pálida, mostrando um sorriso exultante e na outra um belo rapaz de aspecto jovial e sorriso perfeito.

Causou-nos certa estranheza, pois o rapaz era negro! Naquela época, a maioria absoluta dos negros eram escravos, então, como se explicava aquele fato? Fomos ler o diário e descobrimos que a jovem era Lucinda de Albuquerque, filha única de Carlos e Maria Lúcia Albuquerque, e o jovem era escravo de propriedade da família. Os dois cresceram juntos e apaixonaram-se perdidamente, Lucinda engravidou e quando o pai descobriu, torturou o rapaz até a morte, arrancando-lhe todos os dentes e castrando-o sem piedade. A jovem foi presa no porão e definhou até a morte. O diário terminou de ser escrito por sua mãe, que não concordava com aquela situação, mas não poderia deter o marido. Fui às lágrimas ante aquele relato e ao encarar Talvani, percebi o quanto ele era belo e profundamente sensível. Abrimos a caixa e dentro dela havia longas mechas do cabelo de Lucinda e os dentes do seu amado. Saímos dali emocionados e eu decidi que lançaria aquelas tristes lembranças ao mar e lutaria até o fim dos meus dias pelo fim do preconceito e da intolerância. Resolvemos voltar no barco à noite, onde lançamos os despojos daqueles dois jovens, vítimas de uma brutal intolerância. Ao longe, conseguimos avistá-los muito felizes, abraçados e envoltos por uma aura resplandecente, olhando-nos com uma intensa gratidão...

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O Farsante

Conto publicado no volume 3 da Antologia de Contos Fantásticos / CBJE

 

São Luís do Maranhão – Século XIX

Em São Luís havia um próspero comerciante português, um tipo esdrúxulo, rude e um tanto sovina. Chamava-se Pedro Eleutério Batista, mas era conhecido nas redondezas como Batistão, devido ao seu porte físico avantajado.

Se por um lado, Batistão trajava-se sem esmero, usando roupas surradas para economizar seu dinheiro, sua esposa e filhas gastavam aos borbotões, entre roupas, sapatos, chapéus, bolsas, jóias e tudo o que mais lhes aprouvessem. Eram esnobes, mal-educadas, preconceituosas e muito caprichosas.
Bernarda, sua esposa, uma mulher de caráter duvidoso, passava horas à frente do espelho e orgulhava-se por suscitar paixões nos rapazotes da capital; Alice, a filha mais velha, era totalmente desprovida de beleza e diga-se de passagem, só casara por causa do alto dote oferecido pelo pai. Seu marido era um paspalho, totalmente submisso às suas vontades; Margarida, a filha do meio, superava a mãe nas vilanias; Catarina, a filha mais jovem, era belíssima, mas vivia a dar chiliques, além de ser muito estúpida.

Em uma daquelas tardes quentes do mês de agosto, alguém chamou à porta batendo palmas.
— Ô de casa! - Chamou em voz alta.
Logo apareceu uma negrinha espevitada de olhar matreiro, surpresa com aquela visita fora de hora.
— Pois não, meu sinhô! - Falou entre maliciosa e curiosa.
— Boa tarde! Aqui é a residência do Sr. Pedro Batista?
— É sim sinhô... Peraí que vô chamá! - Respondeu Zezé, a criada de D. Bernarda, sumindo no longo corredor da casa.
Batistão apareceu logo em seguida, muito gordo, suado e com a respiração entrecortada.
— Pois não! O que desejas, meu rapaz?
— Venho da parte de Luzia Batista. Veja, trouxe esta carta.
Após ler a missiva, Batista fica rubro e muito emocionado ao reconhecer a letra da irmã mais velha...
— Entre, rapaz! Quer dizer então que tu és meu sobrinho!
— Sou sim, tio! Meu nome é Rodolfo Batista Oliveira, filho único de sua irmã! - Respondeu, fingindo emoção.
— Mas, o que fazes aqui? Aconteceu algo? Nesta carta ela diz que quer que eu te acolha aqui em minha casa... Fale logo, homem! - Gritou o comerciante, transtornado.
— Ela faleceu, tio! Ao adoecer, escreveu essa carta e pediu-me que viesse aqui, para aprender um ofício com o senhor. - Falou Rodolfo com voz trêmula.

Batistão comove-se com a triste história contada pelo sobrinho e o convida para ficar em sua casa, mesmo sabendo que compraria uma tremenda briga com a esposa. O que ele não sabia e sequer imaginava é que Rodolfo era um biltre, um sedutor, um canalha da pior espécie...

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Ana Joaquina de Oliveira Cruz (25/04/1969)
São Luís / MA - Funcionária pública