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Jurcimá
da Penha Soares
Caldas
Novas / GO
De
Imperador a andarilho
Os sinos das igrejas repicavam por todo Império. Todas as Missas
deveriam ser rezadas em intenção do soberano. Foi decretado
feriado nacional. Os mais abastados viajaram dias rumo à sede
do Império na cidade de Verdes Mares. A realeza do mundo inteiro,
representada por monarcas ou embaixadores, alteravam a rotina da cidade,
afinal de contas, não é todo dia que se vê reis,
rainhas e representantes tão ilustres, desfilando de um lado
para o outro, aguardando o grande momento em que sua Majestade Imperial
Delfino, enfim seria coroado Imperador de Lumina.
O Vigário da Capela Real Frei Epaminondas passava as últimas
instruções para Delfino sobre o Rito da Cerimônia
de Coroação. O jovem monarca recém aclamado pela
vontade popular como perpétuo guardião de Lumina, agora
se despedia de suas peripécias de menino e de cavaleiro vencedor
de várias batalhas, para subir ao Trono e de lá governar
uma imensa nação com inúmeros desafios e o maior
deles: corresponder ao anseio do povo de ter um governante bom e justo.
Conduzido pelo cortejo real ao lado de Frei Epaminondas, Delfino vai
se aproximando da Catedral com a saudação do povo que
exclamava: - "Vida longa ao rei!" e no badalar do conjunto
de sinos muito raros, com um coro de vozes angelicais e um órgão
que comovia a todos, adentrava pela porta principal para receber das
mãos de D. Boanerges o cetro e a coroa real.
A partir de então Frei Epaminondas que além da sua função
na Capela Real, era conselheiro pessoal de Delfino e haviam passado
boa parte de sua infância e juventude bem próximos um
do outro, agora entra no anonimato sem poder contar com a companhia
de seu amigo, por questões de protocolo. Após toda aquela
intensa celebração, Frei Epaminondas ainda teve tempo
de cochichar no ouvido de D. Delfino, mas como o barulho era muito
intenso as palavras ficaram confusas.
Por um instante o mundo de Delfino havia sido transformado. A sua
mente viajou por vários lugares e situações.
Todos esperavam que ele fosse reinar entre glórias e que tão
logo corresponderia aos anseios daquela gente. Epaminondas já
não estava mais tão próximo de seu amigo pessoal,
em virtude de uma série de compromissos em que colocavam um
cada vez mais distante do outro. Delfino sempre foi muito intransigente
e não raras vezes se arriscava em aventuras que comprometia
sua segurança pessoal, além de suscitar alguns desafetos.
A vanglória e o poder falaram mais alto. O orgulho pessoal
ressoava como o badalar daqueles sinos e tanta vaidade o fez caminhar
para fora da sua realidade.
Distante de suas origens e comprometendo seu juramento de honrar e
defender a Constituição de Direitos e Deveres de Lumina,
o trono em Verdes Mares estava vacante. Longe de tudo e de todos,
com o peso da idade e acometido de enfermidades da época, Delfino
se desfalecia. Recompondo suas forças, o Monarca que não
havia dado ouvido aos últimos conselhos de Epaminondas, partia
para uma longa jornada. A sua viagem durou pouco tempo. Aliás
o suficiente para se lembrar do que havia dito seu amigo no dia de
sua coroação: -"Majestade não se esqueça
de suas origens e não se deixe seduzir pelo poder."
De volta a uma nova vida, lá estava Delfino e nada mais do
que isso, sentado numa calçada suja, com esgoto à céu
aberto, maltrapilho inteiramente dependente da esmola alheia. Não
havia lembranças nenhuma, a não ser que quando passava
a família real, Delfino sentia um forte desejo de estar ali
também, sem saber explicar o porque. Na rua, sem beira e nem
eira, andando de um lado para o outro se encontrava não mais
o soberano rico e poderoso, senhor de toda terra de Lumina, mas apenas
Leônidas ou simplesmente o Dida, que fora abandonado pelos pais
quando criança e tinha sido educado pela Escola da vida, do
mundo, dos perigos da noite, no meio da marginalidade.
Vida ingrata essa a de Delfino e Leônidas, dois personagens
numa mesma pessoa. Duas vidas que se encontraram no mesmo lugar com
uma única lição: a humildade transforma andarilhos
em imperadores e o orgulho transforma imperadores em andarilhos. Não
se sabe o certo o que aconteceu com o Dida.
A última notícia que se teve dele , foi num hospício,
onde ele brincava de ser rei. Dias atrás após uma noite
de sonhos, resolveu ir até a porta do Palácio Imperial,
reivindicar o direito de mais uma vez usar a coroa que havia sido
dele, afinal de contas como diz o ditado popular: "Quem foi rei
nunca perde a majestade." Outros diziam que Leônidas pegou
sua trouxa e sem muitas delongas pôs se a caminhar para lugar
nenhum, tendo passado pela última vez na porta da Catedral
de São Bento, apenas seguindo estradas, trilhos e picadas pela
imensa terra de Lumina.
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