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Flávia
Assaife Campos de Almeida
Rio
de Janeiro / RJ
Não
há mais tempo
Era uma bela tarde de verão. Anita imersa em seus pensamentos
viajava sem destino, por si mesma. Sentada à beira-mar as águas
cristalinas iam e vinham como se estivessem a acompanhar seus pensamentos.
Delicadamente molhavam seus pés que imergiam por entre a fina
areia branca. O sol preparava-se para retirar-se ofuscando um colorido
rosa alaranjado num céu límpido, sem nuvens... Ouvia-se
o barulho das cigarras que cantavam, anunciando que a noite se aproximava.
Absorta a tudo, Anita apenas pensava...
Neste instante meio atordoada escuta seu nome ao longe...
- Anita! Anita! Onde está você, menina? - Era "Bá"
sua eterna guardiã. Uma morena franzina, magrinha, baixinha,
quem tirava Anita de seu momento de êxtase.
- Sim, Bá, estou aqui, junto ao mar... Estou a pensar... O
que você quer? - Respondeu Anita, um tanto quanto irritada.
- Venha jantar, a comida já está servida, vai esfriar!
-Gritou a mulher, com razoável paciência.
Anita respirou profundamente, não tinha vontade de retirar-se
daquele lugar e de seus pensamentos. Lentamente começou a levantar-se,
ainda sentiu a água morna banhar seus pés mais uma vez...
- Anita! Anita!
- Estou indo. Estou indo. - Respondeu um tanto contrariada.
A mesa já estava posta e o cheiro da comida pairava no ar.
Era uma comida simples: arroz, feijão, purê de batatas,
peito de frango grelhado e uma bela salada de palmito. O aroma era
convidativo e espalhava-se pelo ambiente confortável da sala
de jantar. A casa era bem aconchegante. Por fora era pintada de verde
bem claro com as janelas em branco, cortinas leves esvoaçavam
com a brisa que entrava pela janela... Ficava bem à beira-mar
e possuía um lindo portão todo branco, cheio de flores!
Anita foi se aproximando ainda calada, imersa em seus devaneios, passou
pelo portão entreaberto e pelo jardim, mas não sentiu
o aroma das flores e da refeição que a esperava. Era
uma moça muito bonita, de pele tênue, cabelos longos,
olhos cor de mel, nem gorda, nem magra, possuía um corpo bem
torneado, seios bem definidos, parecia uma miragem com 16 anos de
idade. A menina estava desabrochando em mulher. A face rosada pelo
sol deixava-a ainda mais bela.
Bá foi logo perguntando:
- Anita, o que há? Você está triste?
A mulher a conhecia como ninguém. Foi quem cuidou da menina
desde que nasceu. Filha única de um casal famoso, sempre muito
ocupado com os compromissos profissionais, confiou a Bá, não
somente o papel de Mãe, Pai, Educadora, Cuidadora...mas, principalmente,
a grande representante deles, junto a Anita. Marcos e Míriam
eram pais amorosos, no entanto, um tanto ausentes da vida da filha.
Por vezes Anita se via, desde criança, amparada e consolada
por Bá, que na verdade, era quem estava presente nas festas
da escola, nas dores de dente, nas febres, nos filmes da TV, nos sorrisos,
nos choros, enfim... até no medo do escuro, era ela quem a
socorria e protegia.
- Não. Estou apenas pensando. Respondeu a bela jovem.
- Estou pensando em meus pais. Sussurrou baixinho. - A mulher não
chegou a ouvir.
- Ora menina! Que tanto tem para pensar? É tão jovem,
tão bonita, você precisa é passear, se divertir,
namorar...
Anita apenas sorriu. Um sorriso discreto, com certo ar de desânimo.
"Faltavam apenas três dias para o seu aniversário,
pensou sozinha:" será que meus pais chegarão a
tempo?"...
E pensou que mais uma vez, seus pais poderiam não estar presentes
quando precisava deles. Gostava demais de Bá, mas, por mais
que ela fosse extremamente carinhosa, não era os seus pais.
Sentia-se só. Uma discreta lágrima rolou sobre suas
maçãs rosadas...
A carinhosa senhora percebendo que o momento não era dos mais
festivos foi logo dizendo:
- Sabe o que fiz para a sobremesa? Mousse de Chocolate com castanhas.
Hummm. Aquela que você adora. Em vão, Bá tentava
animar a jovem Anita que novamente esboçou um sorriso triste...
- Sua Mousse é imperdível! Vai adoçar a minha
noite!
A incansável guardiã retirou-se para buscar a sobremesa
e Anita olhou a sua volta. A bela sala onde estava, os quadros pendurados
na parede, cada objeto de arte escolhido por seu pais, trazidos de
diferentes lugares. Não lhe faltava nada. Do que estava se
queixando?Tinha tudo, materialmente falando, que necessitava. Estudara
nos melhores colégios, tinha o armário cheio de roupas,
sapatos, bolsas e mimos que seus pais sempre lhe traziam. Tinha Bá
que nunca lhe deixou que faltasse nada... Sabia que seus pais eram
preocupados com sua educação, esmeravam-se para que
nada lhe faltasse. Ah! Sim, seus pais! Mais uma viagem. Por que viajavam
tanto? Por que não a levavam? Por que tinha que ficar sem eles?
As perguntas fixamente adentravam em sua mente. Por que a presença
de seus pais lhe fazia tanta falta, lhe causava tanta dor... Nunca
havia conversado com eles sobre seus sentimentos. Nunca havia lhes
dito o quanto os amava, o quanto eram importantes para ela, o quanto
ela desejava a presença deles, o carinho, a conversa, o colo...
Não ligava para o conforto material, sabia que era importante,
mas trocaria tudo pelo tempo com seus pais. Um mal-estar repentino
inundou-a por inteiro, não sabia explicar o motivo.
- Olhe querida, esta mousse não está com uma cara maravilhosa?
Está do jeito que você gosta.- Dizia a mulher que chegava
da cozinha com a sobremesa nas mãos.
Anita olha e novamente sorri... Confirma com os olhos as palavras
da gentil senhora.
Neste instante, a campanhia da casa toca.. A jovem em disparada corre
para atender, ávida de que fosse seus pais que a ouviram em
pensamento...
- Boa Noite! Por gentileza gostaria de falar com a senhorita Anita
Toerk.- Disse o homem alto, pele morena, nem gordo nem magro, formalmente
vestido.
- Sou eu mesma. Em que posso ajudá-lo?
- Meu nome é João Medeiros. Trabalho na Polícia
Federal, (já mostrando em mãos o documento). A senhorita
é filha do senhor Marco Toerk e da senhora Miriam Toerk, correto?
- Sim, sou eu... - Respondeu Anita com a voz embargada e um enorme
calafrio que lhe percorreu todo o corpo.
- Senhorita ... houve um acidente com o carro de seus pais... O mesmo
foi atingido por uma caminhão desgovernado. Fizemos tudo o
que foi possível...
Não
houve tempo para que o homem terminasse suas palavras... Anita atordoada,
não conseguia concatenar as ideias, seu corpo parecia tremer
inteiro, sua pele tornou-se esbranquiçada, seus olhos arregalados
e intensamente marejados de lágrimas que lhe escorriam pela
face, levou as mãos aos olhos tentando contê-las, mas
de nada adiantou. Bá, parada na porta, inerte olhava para a
cena, sem saber o que o que fazer... A menina foi descendo até
encontrar o chão, as lágrimas insistiam em rolar por
sua face... Faltavam poucos dias para seu aniversário, estava
ansiosa pela chegada de seus pais. Havia decidido conversar com eles
sobre seus sentimentos, queria estar mais perto deles... Sua cabeça
doía, não conseguia pensar. A mulher, sempre carinhosa
tentou confortá-la com um abraço... Anita deu um suspiro
profundo e abraçada a Bá, apenas disse : ELES SE FORAM.
NÃO HÁ MAIS TEMPO...
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