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Lívia
Pâmela Torres da Costa
Londrina
/ PR
Crime
no amor
"A
visão não é das melhores. Muito buraco, difícil
passar, hein?!" - exclamou ele, porém sem se intimidar.
Seu amigo ia um pouco atrás, bem mais temeroso de iniciante
que era. Bonito era ver o verde, imensas árvores e flores de
tudo que é jeito. Mas para eles diversão garantida era
saltar a cavalo cada desafio imposto pela natureza.
Ia sempre por aqueles campos distrair a cabeça, se aventurar.
Não sabia, porém, que aventura mesmo ainda estava por
vir. Já ao entardecer decidiram descansar à beira das
águas de uma deliciosa cachoeira. Na sombra da árvore
e ao som das águas, não obstante, danaram-se a dormir.
Hora mais tarde levanta assustado ao ver que o cavalo não estava
mais lá. Saiu meio cambaleando, ainda com sono, gritando "Trovão!",
mas só o silêncio se ouvia e o canto dos pássaros,
grilos e sapos. Andado já há algum tanto, parou pra
pensar, mas a lugar algum chegou. Exceto que lembrou-se de que sozinho
não fora para lá. Gritou também por algum tempo,
o nome "Clemêncio", seu amigo fiel. E nada de aparecerem,
então, foi embora, desistiu.
Já a caminho de sua casa, em um dos becos dos quais não
se pode desviar, chamou-lhe a atenção um ruído,
e mesmo temeroso decidiu dar uma olhada. "Céus! Uma emboscada!"
- e saiu disparado, igual louco correndo o mais rápido que
suas pernas podiam. Com os olhos esbugalhados, olhava pra trás
e de todo se tremia. Foi quando ao som de um tiro, virou-se assustado,
como por reflexo para ver do que se tratava. Ali foi o seu maior erro,
pois em suas costas um homem o apunhalava. Com uma forte pancada na
cabeça, o derrubou e, achando que estava morto, deixou seu
corpo ali, apenas um pouco adiante, e saiu sorrindo satisfeito.
Porém, não foi o crime perfeito. Logo de manhã
as crianças ali brincando viram um pouco de sangue e curiosas
procuraram até encontrar e depois saíram gritando: "Mamãe,
vem ver um defunto.". Era o cavalo, coitado, esticado no chão.
O caso intrigou as vizinhas e todas juntaram forças para desvendar
o crime. Chamaram até a polícia - mas você sabe,
não é, caro amigo, que se a polícia chegasse
agora acabaria aqui a história...
Mas como em toda boa história tem sempre uma donzela encantadora
para dar brilho ao texto, assim vi também acontecer, ao ouvir
o canto de Senhorita Zuleica. Com seu tom contralto e suave, passeava
colhendo jabuticaba e cantando. Seus negros cabelos cacheados e sua
pele morena cacau davam cor ao dia e nem parecia se preocupar com
os bochichos exagerados das beatas vizinhas.
No entanto, um pouco distraída, tropeçou e, já
caída, dobrou-se por dentro de assombro e ternura. Como pode
esse moço assim tão bonito, jogado no chão. Os
olhos cheios de lágrimas fitou-o por um tempo, como se hipnotizada.
Foi o tempo necessário para chegar a polícia com Tião,
o Clemêncio, algemado e zombando. Aproximando-se, a moça
do tal, deu-lhe um tapa na cara, dizendo: "Ainda continua sem
mim!". E, voltando-se para o caído, gritou "Samuel!"
e, em prantos, beijou os seus lábios. Não é uma
história de Perrault, mas após o tal beijo, Samuel levantou.
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