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Raimundo Nonato Almeida Crispim
Cajazeiras / PB

 

Sobre os lençois do luar



Raymond Dantieri era um homem solitário, de pouca conversa; poucos amigos; mulheres selecionadas; dentro do seu rigor e padrões de beleza, que o fazia um exímio poeta conquistador: Alto, moreno, cabelos pretos, bem definidos, olhos de conquistador, estatura alta, nariz afilado, corpo bem definido; porém, galanteador, que gostava de recitar poesia, sempre que encontrava ouvinte.
Tudo acontece em seu quarto aconchegante, quando uma meia luz se espreita pela janela, sorrateira entra... Ilumina... Um meio termo de escuridão e luz se confunde no vão do quarto... - Na verdade nem sabe ele se está dormindo ou acordado -, Talvez sonhando -, Quem sabe -, É noite... Madrugada talvez!
A noite é sempre um mistério. Lá fora parece descer do céu grandes cortinas escuras de cetins, descortinando o anoitecer. As nuvens se agitam num balé de ansiedade, sem ritmo nem melodia, enquanto seu corpo inerte, descansa; sua mente trabalha; destila desejos, ansiedades, frustrações, numa cena real e cinematográfica, intitulada de película de sonhos noturnos.
A solidão é um monstro, que o persegue, segue-lhe, e o espreita com olhos vorazes, grandes tentáculos, garras afiadas que o tenta esganar como se ele fosse uma presa humana disponível para o holocausto; apesar do seu ar de galanteador...
Um fiasco de luz! Vestígio de uma lua que paira no céu, entra no quarto silenciosamente, e de fininho espia-o nos seus trajes íntimos; invadindo a sua privacidade. Um cheiro de rosas invade o quarto: São hortências, camélias, margaridas, crisântemos, que caem no chão do quarto; caem vertiginosamente num espetáculo multicor de aromas afrodisíacos... As estrelas, no céu, parecem querer descer ao chão, parecem tão próximas, luzentes e faiscantes.
A sensação de fragilidade o faz acorrentar-se na masmorra do pensamento. A solidão é o passaporte para a ilusão; armadilha pros seus sentimentos, refúgio da esperança fugidia, que lhe escapa no horizonte do entardecer da vida. De referente, ele olha do seu lado e vê a seminudez de uma mulher na sua cama. Linda, sensual, provocante. Seu cheiro feminino o excita, fascina... Suas pernas suaves, tez tentadora, e seu corpo à mostra deixa-o estonteado. Sua boca são duas pétalas rubras, arqueadas; é fonte, onde murmura o amor... Dilúculos suaves de neve invade o leito, e ela, seminua, parece uma santa na moldura da cama.
A mulher estática, quase nua, sob o lençol da cama, metade coberta; a outra metade sedutora e exposta, traduz-se numa bela cena sensual... Em volta tudo é mistério, o silêncio do quarto é imenso, profundo, nem um ruído quebra o silêncio da madrugada.
Seu extinto sexual aflora, diante da beleza feminina que dorme infinitamente, angelicalmente, com um leve pulsar no peito doce e tenro. Ele se esbalda ante a cena, que o faz excitar-se. A beleza vislumbrante dela faz no peito o coração bater descompassadamente; seu pulso ferver; a respiração ofegar; e seus olhos brilharem intensamente.
Ele, num ímpeto, lentamente puxa o lençol; toca-a de mansinho, encosta o ouvido no peito dela e sente o coração bater compassadamente... Quando, de repente, lentamente no céu tudo escurece; A escuridão se faz plena. A noite carrega a luz, que some pela janela de mansinho. Entre nuvens escuras, ela sai levando consigo a jovem que havia ali entrado, deixando-o na solidão da noite, em plena escuridão. Ele acende a luz da realidade e acorda na solidão da noite, da cena surrealista, e está só novamente. No céu a lua em pranto, copiosamente chora.

 
Contos "Além da Imaginação"- Março / 2010