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Valéria
Victorino Valle
Goiânia
/ GO
Retorno
Há luminosidade demais nesse estranho lugar
e eles ofuscam a minha concepção de universo. O chão
está instável e oscila como as doloridas sensações
do meu cérebro. Apesar do medo, preciso enxergar e apenas vejo
a terra amarela e molhada, as rosas brancas murchas, a pá e
as lágrimas quentes como meu hálito e soluços
sufocados.
Há sol ardente nessa triste tarde e ele não seca a densa
água que insiste em brotar na minha face fria. Essa umidade
faz meus olhos rasos e fixos no momento de só-ida e sem-volta.
Ai, como dói a dor do ir e não ver e vir jamais... Um
doído intenso. Uma angústia latejante diante da resposta
para as perguntas "Onde está você?" e "E
eu?"
Sinto uma estranha surpresa ao perceber que existem pessoas a minha
volta e elas também choram impotentes diante da pesada laje
de cimento e as leves flores atiradas sobre ela.
As imagens agora se distorcem e circulam o meu corpo de maneira absurdamente
rápida. As cores das roupas e das flores misturam-se e não
sei exatamente identificar os objetos que me circundam, só
sei que esse louco movimento traz frescor e alívio. Vejo você
e você... Olhos perspicazes, irreverência constante, senso
de justiça aguçado, semblante sereno e amabilidade constante.
Posso sentir o seu corpo firme ao meu lado, as mãos macias
, o beijo doce, o toque suave, o cheiro adocicado e os passos determinados.
Não há mais luz intensa, só há lucidez.
Mergulhados um no outro caminhamos decididos por entre os estreitos
jardins e pequenas casas vizinhas à sua. Conversamos sobre
as bobagens, as instabilidades e os absurdos do nosso antigo mundo
intangível : Vida e morte.
Límpida é a sua voz quando fala dos assuntos complexos
dos seres humanos como o amor e o luto, efemeridade do sentimento
e da vida. Você tranqüilamente diz:
_ Querida, são apenas faltas e ausências... Você
já sabe.
Não há lágrimas nos meus olhos, só há
a boca entreaberta que bebe as palavras doces e conhecidas. E antes
mesmo que eu possa engoli-las, você se afasta deslizando suavemente
pelos caminhos percorridos por nós dois. Olha em minha direção,
sorri e acena um breve adeus.
Não há nitidez nas imagens e na minha débil mente,
o redemoinho colorido volta e arrasta-me para o sol escaldante e para
o burburinho das pessoas. O barulho de vozes confusas e dos gemidos
cansados mostra a saída. Hesito em segui-los, pois preciso
encontrar você. Avanço alguns passos e sinto a umidade
nos sapatos. Retorno. É a terra amarela e molhada. Pá.
Tijolos. Cimento... Ergo a pequena parede que impede momentaneamente
o nosso encontro.
Não há o ar que respiro, mas há o seu sopro de
vida em mim. Sigo seus laços e passos. Caminhemos... Caminhemos,
pois ainda não atirei a minha rosa branca sobre a laje.
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