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Ney
Chagas Pompeu
Rio
de Janeiro / RJ
Que
dia santo é hoje?
Cada dia
que vivo é um dia a menos de vida, de sonhos, de visões
magníficas das coisas vivas, das cores, dos sonhos, dos odores,
dos amores. Apesar do perigo súbito que se revela e a proximidade
com a eternidade, somente um verdadeiro milagre. Que dia santo é
hoje?
Hoje, dia 20 de janeiro de 2025, é meu último dia vivo
na face da Terra. Tô querendo estar sóbrio e concatenado
com tudo ao meu redor. Olho e olho tudo e a todos. Não sei
se serei conduzido e recebido pelas mãos de Deus, exagero e
audácia, quiçá pelos pelegos querubins. Talvez
ainda seja mandado para o purgatório, somente se não
der tempo da minha última confissão. Quando passar à
outra dimensão, com certeza, de nada me lembrarei. Creio que
nossa passagem aqui é única, sem volta, não importa
a idade, vivemos constantemente induzidos a ter medo.
Em meu último dia devo sair firme, coroado do êxito,
saído da inércia, caminhando com firmeza, com virilidade
e expressão, com minhas próprias ideias, fruto da trajetória
humana bem vivida. Mente aberta, faro aprovado, e a percepção
de que caminhar é mais importante do que o caminho que percorri
neste período sobre o tempo que pisei nesta amável e
tolerável terra. Deixando gravada em livros, esta vida soberba.
O envelhecimento e a velhice não faziam parte do meu cotidiano,
mas comecei a observar sinais senis nestes momentos que antecedem
ao grande acontecimento. Que estava asilado, exilado e excluído
e maltratado pelos meus, e pela sociedade em tudo. Fui entregue ao
HGMIP.
Ajudei a construir este país, impulsionei algumas lideranças
e modifiquei estruturas. Agora sou estereotipado "velho".
Aonde estão as ações governamentais contra este
preconceito? Onde estão as ações sociais, lazer,
atividades culturais e apoio da medicina estruturada a dar mais sobrevida?
Somente este pré-teste do HGMIP.
Sou portador de um chip subcutâneo, interligado ao meu cérebro
e a outros ór-gãos vitais através de eletrodos
internos. Foi instalado em 2021. Logo os dados são enviados
ao computador central do Hospital Geral de Medicina dos Idosos e Problemáticos.
(HGMIP).
Após serem coletados os últimos dados, analisados e
calculados determinaram esta data certinha e infalível: "é
hoje". Somente os idosos, pobres e ricos que causam iminentes
e repentinas despesas ao estado, ou seus filhos queridos, que querem
logo ter a certeza da data do último compromisso com seus pais,
dão ao governo a deliberação da instalação
desta nova invenção bem apropriada aos seus interesses.
É como um recebimento de herança antecipada. É
uma nota promissória certa. Herdam com antecipação
e lavam as mãos.
Tais informações processadas acusam uma série
de defeitos em nossos organismos. Estes sensores medem e resolvem,
quase que imediatamente e, com verdadeira precisão, resultados
de pressão arterial, AVC, enzimas do enfarte, taxas de glicose,
colesterol, osteoporose, inchaço do fígado, PSA, mal
de Alzheimer, mal de Parkinson, câncer de mama, de tal forma
que invarialvemente somos analisados a cada hora nas 24 horas do dia,
nos sete dias da semana. Não para. Garante-nos a data precisa
e honrosa de marcar a verdadeira missa, sem a sombra da dúvida
de novas intervenções cirúrgicas. É a
morte mesmo, sem escapatória.
Foi difícil conciliar essa espera angustiante, quatro duradouros
e longos anos de despedidas, restrições alimentares,
e econômicas. Quem vai morrer gosta de gastar dinheiro, comprar
compulsivamente, sonhar com objetos que nunca teve viajar, fazer dívidas,
quem vai pagá-las? Dar presentes, curtir adoidado. Comer de
tudo e beber todas. Imagina comprar um carro novo, modelo possante.
Meu sonho: uma reluzente Mercedes, ano 2023, azul estrela.
Nem comer a vontade o governo deixa. É contenção,
desperdício de ambulâncias, soros, leitos, remédios
e internações. É o regime alimentar regulamentado.
Alguns velhos abastados que distribuíram seus bens em doação,
recolheram antecipadamente seus impostos ao governo, compram carta
de fiança e pagam os seus gastos antecipados. Já estão
no mês ou ano da finalização da vida. E eles,
sem saber, continuam moribundos a usar o seu cartão de crédito
com louvor. Não é meu caso, é o fim mesmo. Ou
seja, não tenho dinheiro, então não tenho direito
a nada. Somente a morte e a cremação. Já não
há mais espaço sob a terra, terra de vários donos
ou de um só.
Confidenciando com meu médico, meu temor da morte, ele sugeriu
o uso desse novo controlador geriátrico. É realmente
uma opção bem determinada e corajosa. Não sei
se por influência dele ou para obter uma maior sobrevida, já
que automaticamente, este objeto em caso de algum diagnostica problemático
injeta em meu corpo remédios apropriados e na dosagem certa
e imediatamente e alarma ao HGMIP.
Por medo da morte prematura, consultei aos meus sentimentos, sem pudor
e recriando o temeroso futuro, tive esta esplêndida resposta
de quatro anos. É pouco, espero que meu chip esteja com defeito.
Se arrependimento matasse!
Agora passei a viver este desespero do fim. Obrigado a deixar o celular
carregado com esta bateria nova, ficam 45 dias ligados e funcionando.
Ele é o elo. A cada hora, conectado ao meu chip envia alarmes
de falha ao (HGMIP) e ainda por cima tem um GPS. Aonde eu for me encontram.
Deixarei a secretária ligada, quem me ligar vai ouvir com a
minha voz o último anúncio: "morri, não
posso ouvir, não deixe mensagem, não poderei mais responder".
Estar vivo era tudo, curtido a vida, a praia, os olhares, o carro
na vaga, a geladeira cheia, os bons vinhos, restaurantes, canjiquinha
mineira. Essa vida com vida. Aonde arranjar mais tempo? Como me livrar
deste implante do CHMIP? Como contar aos meus amigos e casos? O ultimo
momento que desespero, pra onde fugir.
Minha família - de quem me despedir primeiro? De mim mesmo,
da mãe, da irmã, da mulher, dos filhos, do cachorro,
do passarinho?
Quem vai beber esta cerveja gelada, este sabor incomensuravelmente
delicioso, os bacalhaus, os camarões com alho frito, o que
fazer? De quem me despedir, de quem me esconder? Vou acender meu charuto,
olhar o céu azul, meu Deus, o fim chegou.
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