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Isaías
Edson Sidney
São
Paulo / SP
O
romeiro
Sentiu-se dançando num inefável tapete
de musgos. Mas era apenas merda. Muita merda acumulada em anos e anos
de cagança festiva e dourada. Foram os anos das cerimônias
mais pomposas, dos milagres mais etéreos. Multidões
chegavam de todas as partes. E devoravam dezenas de milhares de cachorros-quentes,
de espigas de milho e bebiam a beberagem escura que os camelôs
de comidas, em centenas de carrocinhas, ofereciam como brinde, um
caldo grosso e doce, diziam ser de cana. Assim, cagava-se muito. Cagava-se
em todos os lugares. E agora, na noite de breu da cidade da santa,
sozinho e cansado, ele queria apenas uma enxerga dura para jogar o
esqueleto bambo da longa travessia. De longe viera, como tantos vinham
todos os anos. Mas dessa vez, não teve reza que evitasse o
tempo perdido. No tranco da estrada, o carro quebrado, justo o eixo
novo, novinho em folha. Estrago feito, não adiantava espernear.
Mas achar a cabriúva, cortar a árvore, aplainar a madeira,
acertar com capricho a espiga, arredondar a emborgueira, alisar, azeitar
e encaixar bem direitinho a cantadeira nas duas rodas que giram, e
em harmonia girando, fazem chiar o chiado do carro além da
curva da estrada, tudo isso levou tempo. Nesse entretanto, os dois
bois engordaram, tornaram-se preguiçosos e a viagem, ainda
mais lenta naquela lentidão de caminhos. E ele viu a estrada
se esvaziar e depois se encher e de novo se esvaziar de peregrinos.
Quando, enfim, chegou à cidade da santa, só encontrou
despojos de festas acabadas, caminhos entulhados de ex-votos e lixo,
muito lixo. E pior, chegou de noite, já sem óleo de
mamona na azeiteira, o carro sem canto, sem alma, e ele cansado da
longa jornada. Turvos do pó de tantas estradas, os olhos não
mais reconheciam as velhas pegadas que levavam à vetusta capela
onde todos se ajoelhavam em extremado ato de fé e de humilhação.
Lavavam, ali, para sempre, velhos pecados. Deixavam, ali, aos pés
da santa, a alma limpinha, imaculada mesmo, pelo menos até
a próxima romaria. Trêfego e sujo, que os bois preguiçosos
guiassem seus passos. Confiava, mais por necessidade que por fé
de romeiro, no seu instinto de velhos conhecedores das encruzilhadas.
E agora estava ali, pisando aquele musgo gosmento que cheirava pior
que o sovaco do capeta. A sensação inefável virou
logo desespero. Ajoelhar para pedir um milagre à santinha,
nem pensar. Era tudo merda, merda até o meio da canela. Chapinhou
um pouco para lá e para cá, sem saber direito o que
fazer. O breu da noite sem estrela e a vista turvada do pó
não o deixavam enxergar nada além da silhueta sossegada
dos dois bois e do carro atolado, inerme, sem canto, sem alma. Num
gesto desesperado, soltou Malhado e Cheiroso, atrelou os arreios e
tentou montar num deles, sem saber direito em qual dos dois lombos
tentava se equilibrar, o que só alcançou depois de muito
esforço, as pernas escorregadias do limo sujo. Lá de
cima, atiçou a espora no flanco do bicho, e gritou: Eia, Malhado!
O bicho resfolegou, chapinhou as patas no lodo fedorento, fez que
ia e corcoveou. Mal sentiu o baque das costas na lama macia e mal-cheirosa,
percebeu a cagada que fizera. Errara o nome do bicho. E Cheiroso era
boi sistemático e sorumbático. Não ia aceitar
nunca um novo apelido, assim, depois de velho. E mais furioso ficou
ao ouvir o nome dele, Cheiroso, trocado assim pelo do outro, com quem
convivia há tantos anos entre turras e chifradas. Mas esse
pensamento na sua cabeça não teve continuidade, porque
agora ele se sentia flutuando, quase a bailar, naquele inefável
mar de anos e anos de cagança festiva e dourada. E afundar
para sempre, ali, como um carro sem canto e sem alma, era só
a menor de suas preocupações.
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