| |
Julçara
Cavalcante Cruz de Almeida
Fortaleza
/ CE
A
vampira do Arco da Almedina
Quem nunca
foi à Coimbra não conhece o Arco da Almedina. Para mim,
que sempre transita por ele, é o lugar mais assustador da cidade.
O Arco da Almedina ganha, em matéria de assombração,
até para a Sé Velha, que eu acho assustadoramente fascinante.
Todavia, este conto não é sobre a Sé Velha, é
sobre o Arco da Almedina.
Não farei propaganda de quem o construiu (se foi D. Afonso
III ou D. Dinis, ou outro, isso não vem ao caso), assim como
não pesquisei a data de sua construção (séculos
XIII?, XIV?, XV?...pouco importa agora), porque só de olhar,
qualquer indivíduo (com um mínimo de compreensão
histórica ou estética) será capaz de perceber
que o Arco é bem velhinho! Ademais, este conto não é
bem bem sobre o Arco da Almedina, mas sobre um ser estranho que costumava
habitá-lo, principalmente à noite.
Devo confessar que esta história não é fruto
de nenhuma outra história contada ou ouvida: quem quiser, pode
investigar!
Ao chegar no Largo da Portagem, segue-se pela rua Ferreira Borges
e, antes de chegar ao Largo de Sansão ou Praça 8 de
Maio, o transeunte tem à sua direita oito degraus: são
os primeiros passos a serem dados para se adentrar no pequeno corredor
de pedras, espécie de túnel com poucos metros, escuro
e frio, um caminho rápido para se chegar a Ladeira do Quebra-Costas,
à Sé Velha, ao Largo da Porta Férrea.
No meio do túnel, à esquerda, há uma loja de
suvenires de um senhor moçambicano que vende tudo (ou quase
tudo). Ele nunca está lá quando o ser estranho habita
o Arco. Penso que ninguém é capaz de dar o testemunho
e a palavra de que o que escrevo tem algum carácter de veracidade.
Quem poderia fazê-lo, não o fará, para evitar
complicações matrimoniais. Somente a imagem de pedra
(aquela da senhora segurando o bebê), que se encontra entre
os arcos menor e maior, seria capaz de testemunhar e até jurar,
mas estátuas não falam nem juram. Por isso mesmo, seguimos
com o conto.
Depois que a cidade caía em sono profundo, uma criatura envolvida
na penumbra da noite e vestida de negro, exalando um perfume sedutor,
encostava-se à parede fria do Arco da Almedina e ficava ali,
imóvel como sonâmbula. Na sua cabeça, ela retornava
ao passado e sentia-se numa época em que tudo era proibido.
Portanto, transgredir o passado proibitivo num presente repressor,
era um meio de libertação para ela.
Quanto mais a noite avançava, mais difícil ficava de
alguém passar por ali. Porém, um ou outro sempre passava:
algum desconhecido que cortava caminho ou algum conhecido que aspirava
repetir a experiência já antes vivenciada. Ela os caçava
quando havia algum interesse natural. Se não a agradavam, deixava-os
ir, enquanto ficava metamorfoseada na noite. Com um abraço
de serpente, e um beijo devorador, ela arrancava o ar dos pulmões
de suas vítimas, enquanto as envolvia numa espécie de
torpor e gozo metafísicos. Para encerrar o ritual, ela mordia-lhes
o pescoço, deixando-lhes uma marca arroxeada que o (in)feliz
escondia da vista de todos durante dias. Às vezes, o indivíduo
ficava tão hipnotizado que desmaiava de prazer ou crente de
que dormia e não queria acordar. Assim sendo, facilitava-lhe
o desaparecimento tão rápido quanto ao seu surgimento
do nada.
Quantos não foram vítimas felizes da criatura noturna
que habitava o Arco da Almedina?
E por que nenhuma das vítimas não prestou queixa à
Delegacia de Polícia local, pedindo uma indenização
à Câmara Municipal de Coimbra? Será que teriam
algum direito?
E a criatura, quem sabe de seu paradeiro? Que ventos levaram-na?
Eu penso que, aquele que apurar bem o ouvido, ao passar pelo Arco
da Almedina, vai ouvir um fado cheio de lamento como um chamado calado
cantado por aqueles que esperam o seu retorno.
Ainda hoje, eu solto um sorriso jocoso quando atravesso, de dia, o
Arco da Almedina.
Sim. Porque, à noite, nunca mais passei por lá!
|
|
|