| |
Ediloy
Ferraro
São
Paulo / SP
Alucinação
Reverberava da
janela do pequeno quarto um sol tênue, de meia tarde, chocando-se
com o vitral, causando um reflexo luminoso, qual fagulha de uma chama.
A rua era deserta. Só mesmo a réstia de luz permanecia
latejante. O comércio tinha suas portas cerradas, deveria,
certamente, ser feriado. Da mais modesta loja até o Paço
Municipal, podia se admirar, ainda que de forma modesta, a arte no
talhe das portas, gosto hoje raro. Uma ou outra alma percebia-se perambulando
pelos arredores, no adro da matriz, a qual exibia belíssimas
esculturas, imagens sacras, lembrando o período barroco. De
resto, pouco ou quase nada se alterava naquelas pequeninas alamedas,
distribuídas em forma de setas, tendo por centro um jardim
melancólico a rodear a igreja.
Um cão magro, empesteado, contrastando com o asseio do ambiente,
acomodou-se sob um dos bancos, gentilmente cedido por uma das casas
comerciais ou personalidades da câmara.
Acompanhava o cenário plácido, uma fragrância
agradável, provinda dos pés de figo, predominante por
todo o passeio público. Um chafariz aposentado lembrava a mitológica
figura grega, Netuno, a ostentar um tridente ou cetro – não
estou bem certo – cercado por graciosos peixinhos de pedra a
jorrarem água na fonte seca.
Aquele harmônico conjunto de coisas simples e belas chegava-me
como uma tela em guache com matizes claros, suaves e exageradamente
poéticos. Não fosse o pesar que de mim se apossava,
poderia propor-me uma volta pelos pontos mais excêntricos para
certificar-me se tal paz reinava também pela periferia. Não
fui. Estava demasiadamente indisposto, os olhos irritados e vermelhos
por uma noite em claro. Dessa forma, recolhida a inspiração
no âmago ferido, toda a sensação transmitida pela
paisagem bucólica tornava-se enfastiante e monótona,
dando-me a certeza do isolamento, pondo-me n’alma um esplim
deplorável.
Limitei-me a observar de longe o clima propício às divagações
do espírito. Desprezei ou procurei afastar imagens que me fizessem
recordar a chaga ainda sangrando, escancarada, doída. Não
raras viam, às bátegas, encontrando-me fraco e indefeso,
impossibilitado de fuga, como um foragido embestegado num labirinto
sem saída, cuja única sina fosse o fim.
Num plano irreal, pensei entregar-me à letargia profunda, esquecendo-me
na coloração pitoresca daquela paisagem. Cheguei a temer
um pesadelo, como se a situação em si já não
o fosse. Invejei o cão, mesmo doente, pois descansava despreocupado.
Uma gota de suor escorreu-me pela testa trazendo-me à realidade.
Era verão. Um mormaço, antevendo chuvas, evaporava-se
do solo, enchendo-me as narinas de um frescor de terra revolta ao
contato com a água.
Trajava um hábito sisudo, de pêsames, negro. A camisa
de um colorido discreto colou-se à pele. Eu transpirava por
todo o corpo. Sentia, amiúde, calafrios e mal-estares passageiros,
resultando em frequentes vertigens.
Achava-me debilitado e exausto. Não tinha apetite, tampouco
calma para o sono. Há dois dias abstinha-me da alimentação.
Tinha os olhos saltados nas órbitas e um ar alucinado, beirando
à sandice total. Vagava como uma sombra babélica, fitando
o vazio, vendo não vendo.
A tela poética, bela e tranquila, tornava-se, ao sabor de meu
estado de semiconsciência , funesta, carregada, escura. As árvores
envergavam seus galhos num farfalhar enlouquecedor, chegando a derrubar
seus frutos ainda verdes. Julguei ouvir, levemente, o sino agitar-se
com o vendaval que se anunciava breve, dando ao todo um tom de dilúvio
apocalíptico.
Passados os instantes de agonia, voltava a mim e tomava ciência
de que tudo não era senão o produto de uma mente condenada,
tresloucada, enferma. Tratava-se não de uma tempestade, como
terrivelmente imaginara, mas de algumas nuvens passageiras, sem diminuírem
a temperatura, apenas refrescando-a um pouco.
Uma algazarra
alegre ouvia, barcos de papel, risos, choros, euforias, Sol e Chuva
casamento de viúva ! como se dizia na inocência de meus
primeiros anos. Este pensamento mesclou-se em meu ser desnorteado
e encheu-me os olhos de um saudosismo intenso... Quem dera, agora,
não temer o inevitável, não envelhecer-me no
tédio de minhas aflições ?
Com o aguaceiro,
um certo movimento animou, por instantes, o panorama. A chuva descia
copiosa e sôfrega em nutridas gotas, será breve –
pensei. Um casal de pombos, possivelmente ocultos nos alpendres das
casas ou pelos vãos das calhas sobrevoaram a praça,
cortando-a, indo pousar próximo à capela do sino. O
vira-latas, preguiçoso, buscou refúgio mais acolhedor
no coreto velho, em desuso, instalando-se num ângulo ainda livre
das goteiras, enquanto lambia a ferida exposta, procurando alívio
para a sua dor.
O silêncio, se é que chegou a ser molestado, invadiu
definitivamente as ruelas e as vidas solitárias, dando à
tarde um anoitecer precoce, auxiliado pelo tempo que a fazia escura.
Da janela, prostrado,
em pé, observava a praça tornar-se opaca, com as figueiras,
as aves, o cão... Embaçou-se o colorido da vidraça
e atrás dela minha face, retalhada em cores fortes, num mosaico
tétrico.
Apagava-se, por
fim, o último alento de vida, o raio de sol na janela.
Um manto negro
debruçava-se sobre a tarde, que morria, eu, confuso, ia com
ela...
|
|
|