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Joana
Masen
Campinas
/ SP
Rotina
Sou a
moradora do segundo andar, apesar de querer realmente morar no primeiro,
de onde a vista é mais privilegiada. Você provavelmente
não me conhece, assim como o restante dos meus vizinhos. Eu
vivo aqui, só comigo, e não vejo problema algum nisso.
Faço o que quero quando quero e ninguém pode controlar
minha vida. Pensei em ter um gato, para me fazer companhia, mas acabei
concluindo que seria trabalho demais. Estou sempre lendo um bom livro,
e eles me garantem a companhia de que preciso. Gosto de ouvir Anita
Backer tocando bem baixinho no CD player no final da tarde, quando
me sento na varanda, bebo minha dose diária de vodka barata
e fico observando o movimento dos moradores, entrando e saindo, vivendo
suas vidinhas miseráveis. Alguns são interessantes,
como aquele casal do carro branco. Eles saem todos os dias discutindo,
e quando voltam pra casa, estão só risos. E eu me pergunto
que tipo de rotina doentia é essa. A senhora do terceiro andar
também me chama muito a atenção. Ela recebe muitas
visitas de técnicos de todas as espécies: encanador,
eletricista, aquele que conserta eletrodomésticos, o cara da
TV a cabo. Todos eles aparecem com frequência em sua casa, e
ela os trata muito bem. Pelos barulhos estranhos que ouço às
vezes, acredito que eles devam prestar muitos serviços a ela.
Crianças não me causam curiosidade, por isso não
tenho nada para falar delas. Há também um senhor de
uns cinquenta anos, que mora no oitavo andar, que sai todas as manhãs
para passear com um poodle horrível e fica me olhando. Outro
dia ele piscou pra mim e me mandou um beijo. Pobre homem, ele nem
imagina. Os homens não me despertam interesse. Na verdade,
eu gostaria de encontrar uma mulher que me fizesse todas aquelas coisas
que passam em filmes de lésbicas. Esse é meu verdadeiro
sonho, encontrar uma boa amante, para passar as madrugadas comigo
fumando um cigarro na varanda e curtindo Sade. Muitas vezes gosto
de ficar sentada nas escadas e imaginando o que as pessoas estão
fazendo em seus apartamentos, do que elas gostam, o que comem. É
uma obsessão estranha, mas sinto prazer em inventar vida para
os outros. Numa noite dessas, estava muito quente e decidi ficar nas
escadas ouvindo Aretha Franklin no Ipod, com meu copo de vodka e gelo,
e ela surgiu. Aquela que eu sempre esperava, a minha amante fantástica.
Era morena, de olhar decidido. Ela me pegou pela mão e me levou
à loucura. É só o que posso contar, pois os detalhes
são íntimos demais, e cabe a você imaginar, assim
como eu imagino tudo o que você faz quando fecha sua porta.
Você pode até cruzar comigo um dia pelos corredores,
mas saberá apenas que sou a moradora do segundo andar.
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