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Rita de Cássia Carvalho Nogueira Sovatti
São Paulo / SP

 

Sonho no feminino



Desfilavas altiva e graciosamente pela casa, que era aquela, mas não havia nada mais de antigo.
Tudo fora modificado. Andavas, belíssima e em saltos tão altos, que te sobrepunhas à minha altura.
E me olhavas de cima por sobre os saltos, como se fosses maior em tudo.
Mostravas-me a nova mobília, quase todos os móveis enfileirados, mas esteticamente em harmonia.
Fazias tal, com tal desprezo por mim, que me causava arrepios medonhos.
Perguntava-me em pensamento: "- O que faço aqui?".
Uma mesa, de nogueira e longa, estendia-se sobre um canto da sala. Notava-se-a.
O animal era o mesmo, com pelos curtos, tosados, tingidos de turquesa; havia um filhotinho ao seu lado, também azul.
Quando fui ao seu encontro, abanava o rabinho, como outrora e eu chorava dizendo que tive muita saudade e a emoção, como em todo animal, fê-lo discretamente urinar. Enfim, cada qual expressando saudade e alegria em rever-se, a sua maneira: desidratávamos.
Percebi que não voltava para lá, mas fora convidada à visitação, mas de forma velada, sem revelação de números de telefone ou intenção de mantermos contato, ou revermo-nos após.
Fora breve a visita e sem propósito aparente.
Saí. Tomei o elevador de sempre, porém, reformado.
Conduzia-me ele ao destino num ir e vir, como montanha-russa.
A descida parecia não acabar. Era grande o desconforto.
Ao chão, percebi ter esquecido a bolsa.
E bolsa feminina, diga-se lá! É quase a pessoa desnudada em poder de outrem quando esquecida.
Telefonei para o número antigo que, então, ainda dele me lembrava e fui atendida por tua irmã.
Pedi a ela que guardasse a bolsa, pois não iria enfrentar aquela subida pavorosa novamente.
Certamente, reaveria o pertence em breve. Ou não. A sensação era a de que o fato pouco importava.
Mas alguém me esperava em casa e rapidamente quis voltar.
A bolsa feminina, para além de um "trailer" ambulante, é o próprio útero feminino.
Assim, deixei o meu lá. Talvez para sempre.
O que quer dizer esse útero simbólico lá?
Que queria cuidar de algo que parecia parido por mim? em boa hora não o tivesse sido?
Sei, apenas, que fui ao encontro do meu destino atual, delicadamente redelineado a quatro mãos.
Deixei lá uma parte de mim, mas não me fazia falta.
Na verdade, não faz.

 
Contos "Além da Imaginação"- Março / 2010