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Wesley
Lyeverton Correia Ribeiro
Fortaleza
/ CE
Gerações
Lembro-me
do dia em que abriram minhas portas. Os raios do sol transpassaram
minhas fronteiras com o descerrar das inúmeras janelas que
me circundavam. Eu fora consolidada sobre uma terra firme e com alicerces
que meu dono assegurou que os ventos jamais derrubariam. O descampado
ao meu redor era de uma verdura sem par, onde as aves se aventuravam
em vôos rasantes e os grilos emitiam sons que davam o tom à
noite. Avistava-se do alpendre, defronte a entrada principal, a cruz
trazida pelos açorianos que, juntamente com o Senhor Gusmão
de Alcântara, aqui chegaram. Eles se foram e o velho nobre se
quedou. A madeira de minha estrutura era nobre, o jacarandá
envelhecido fora talhado para dar forma a minha mobília, a
prataria e os cristais importados me adornavam de um ar soberano e
o lustre, ao centro da sala, recepcionava os visitantes e representava
o coroamento da minha elegância.
Parecia-me que o tempo passava mais vagarosamente. Sob meu telhado,
vi nascer e morrer inúmeras gerações da família.
Pessoas de gostos e índoles diferentes. Uns me foram marcantes,
outros não merecem ser mencionados. Quando Violeta, a primogênita
dos Alcântaras, nasceu, após um difícil parto,
a casa se alumiou de uma doçura que cativava. Fora batizada
assim, por sua cor arroxeada de asfixia, pois o cordão que
lhe nutria enlaçara o seu pescoço sem piedade. Milagre.
A menina crescera penteando suas bonecas e as tratando como filhas.
Desde cedo, mostrara sua arte materna. Na juventude, conhecera um
vendedor de miçangas que batera em sua porta. Encantara-se
pelos adornos e pelo moço. Com ele teve diversos filhos. Clara,
a caçula, quando estava sendo acalentada pelo senhor Gusmão
na cadeira de balanço da soleira, sentiu a frieza do seu corpo
de seu avô. Era a primeira vez que a velha-dama chegara, de
súbito e sem licenças. Cecília, a única
filha de Clara, herdara a força do sangue lusitano e por toda
a vida fora complicada. Seu gênio intransigente fez refém
todos os moradores da casa, pois seus desejos tinham que ser satisfeitos
sem recusas. Na segunda tarde de abril daquele ano, ela entrara no
quarto com uma corda e não mais saíra. Enforcara-se
no armador das redes na presença de São Sebastião
que lhe velava da penteadeira.
Os animais de estima que viviam em minhas dependência também
me trazem muitas lembranças. Lila, a gata Angorá, era
a mais meiga de todos e por muito tempo fora os prazeres da casa.
Todos a tratavam com um dos seus. As almofadas do sofá era
seu recanto predileto e arranhar minhas paredes com as afiadas unhas,
o seu divertimento. Porém, todo o encanto da presença
de Lila durou pouco. Em uma de suas andanças noturnas para
gracejar os outros bichanos ela sumiu sem deixar pistas de seu destino.
Sua ausência me entristeceu por anos.
Quando a presença da pequena felina já passava despercebida.
Senti que a terra sofria transformações. No amanhecer
de um dia, senti minhas bases tremeram. Apavoramento generalizado
em toda a casa. Nos meses subseqüentes, a natureza fora impiedosa
com o povo daquele lugar. A seca chegara, o gado morrera de fome,
o descampado perdeu a vida e a terra cheirava à desgraça.
Alberto, filho de Clara com um serviçal da casa, foi o responsável
pela salvação de todos.
Senti quando minha porta fora vedada com grandes madeiras e pregos.
O adeus foi breve, mas pude acompanhar o caminhar desolado dos Alcântaras
até sumirem das minhas vistas. Abandono.
A temperatura fez com que minhas paredes dilatassem. As rachaduras
me retalharam sem cerimônia. O ar abafado dentro de mim era
sufocante, torturava-me. Por décadas, acumulei poeira e saudade.
Em um final de tarde, senti que os cupins já faziam um banquete
de minhas madeiras, foi quando o meu primeiro caibro caíra.
Eu estava fadada ao desmoronamento, contudo estava ciente de que apenas
fui serventia, pois é certo que não havia vida em mim,
restavam-me apenas resquícios de sentimento, solidão
e um singelo entusiasmo para contar minha saga.
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