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José
Luiz da Luz
Ponta
Grossa / PR
Enviados
para a morte
-Morte
encefálica!... Rápido Doutor Astatus, ajusta as imagens
da sonda.
-Vejo uma pálida luz. Ainda sem definição...
está sumindo de novo. Ah, não acredito! Doutora Acerina,
fracassamos pela centésima vez! Não suporto mais, eu
quero as cenas do céu ou do inferno neste monitor...
Aquele cadáver era o culpado: fora um devasso, o álcool
no sangue alterou a frequência do sensor grudado na cabeça.
Havia enfermos cobertos de pus e sangue naquele hospital, vidas revitalizadas,
outras vezes a morte gelava as faces num fechar de olhos. No último
suspiro, libertavam-se espíritos de corpos febris, devorados
pela fúria do mundo.
Talvez um dia fosse possível gravar as imagens e cenas que
fizeram extasiar monges e ermidas, sonhar filósofos, tremer
profetas, mas estava ali diante deles um cadáver lívido,
cujo espírito escapara das mãos sem controle.
O Doutor Astatus tinha a tez pálida, mas o amarelo da face
lhe rendiam suspeitas de doentio; seus cabelos fartos, estranhamente
perdeu em pouquíssimo tempo. Era mais um pesquisador do que
neurologista, cujo interesse pelos distúrbios do sono o inspirou
a desbravar os mistérios da morte. Findar-se entre vermes de
cemitério, ver o fogo da vida se apagar debaixo da mortalha?
Não! Isso era inaceitável!
Era algo inusitado, queria provar a imortalidade da alma através
da matéria. Uma ambição além da trans-comunicação:
sua ciência consistia na monitoração de pacientes
na hora da morte através de um sensor grudado na cabeça,
para captar imagens ou cenas do mundo dos mortos. Seria como assistir
aos sonhos da noite na tela de um computador, como se fosse um filme.
Enquanto uma equipe votava esforços para salvar vidas, a equipe
do Doutor Astatus frente a pacientes terminais, esforçava-se
para desnudar a morte.
Depois daquela última tentativa, o Doutor Pusillus, que há
tempos sabia das pesquisas, foi à casa do mentor das pesquisas
numa tarde para questioná-lo. Companheiro de profissão,
mas o ceticismo era uma planta que ele deixara vingar.
-Hereges, ímpios! Seriam chamados pelo Papa na inquisição,
arderiam no estalar da fogueira. Uma pedra! Monitorar um cadáver
se resume a sondar uma pedra.
O Doutor Astatus vestido de autoridade, respondeu.
-Pobre amigo! Pedras nunca amaram, nunca sonharam, nunca tiveram força
vital. O ceticismo enevoa teus olhos sem lume, não penses que
a morte é um acúmulo de células sem o calor do
sangue correndo, a serem devoradas pelos vermes.
Os copos cheios de água mineral suavam gelados na mesa da sala,
refletindo o calor dos ânimos. Tudo quanto havia de inaceitável,
agitava os pensamentos do Doutor Pusillus: “O profano penetrar
no sagrado, blasfêmia!”
A noite corria em conflitantes debates, cada um com seus dogmas próprios
de filosofia e crença. O Doutor Astatus resolveu então
revelar suas anotações científicas:
-Meu caro! A morte não é como se arrebentasse uma corda:
uma violenta ruptura e tudo se apaga. Lembras da morte daquele devasso?
Depois de um longo suspiro, o miserável amoleceu, se apagou!
É a partir do fogo apagado que vêm os meus segredos:
O Doutor Pusillus sentiu um arrepio. Depois o doutor Astatus continuou:
-Depois que a alma se liberta do corpo na morte, o corpo ainda conserva
um resquício de força vital, mas é por pouco
tempo. Força vital não significa vida, não confunda,
força vital é apenas uma forma de energia.
-Não entendo! Por que então a alma não volta
ao corpo?
-Porque a força vital que permanece é ínfima,
além disso, a alma precisa também de outras forças
para ficar no corpo. Sabes de uma fogueira apagada? Não há
mais as chamas que lhe davam vida, mas as cinzas ainda carregam por
longas horas o calor, mas jamais as cinzas voltarão a ser fogueiras
novamente.
-Queres monitorar o calor de cadáveres?
-Continuas a não entender! Se permanece uma sutil energia no
corpo, significa que ainda fica uma tênue ligação
com a alma, mesmo depois da morte, mas que se exaure rapidamente como
um cubo de gelo no deserto. O sensor grudado na cabeça é
para tentar captar o que a alma está vendo no mundo dos mortos.
-Interessante! Mas, sondar pelas frestas da porta da morte é
perigoso.
Na alta madrugada, o Doutor Astatus estava a sós. A cortina
que selava a porta da morte tinha que ser rompida. Sua face suarenta
transluzia cada vez mais uma palidez doentia. O sono não vinha,
ora vozes o perturbavam, ora se estarrecia com vultos.
“Pusillus é um insensato! Seu ceticismo é a aridez
das pedras, a descrença é ainda pior do que são
pesarosas as dúvidas.”
Naquela quietude escura, seus medos emergiam sua verdade dolorida,
aos olhos dos outros vestia a máscara de fervoroso espiritualista,
mas a busca por provas do além túmulo era na verdade
para provar a si mesmo. Sentia-se diferente de um cético, porque
eles simplesmente são áridos, ele porém, não
queria que tudo terminasse em fétidos vermes, sob uma lápide
reluzente ao sol, mas as dúvidas o angustiavam:
“Meu Deus! Sinto-me fraco, para onde vou após a morte?”
No dia seguinte, de olhos inchados pelos delírios da madrugada,
no hospital se encontrou com a Doutora Acerina, e apresentou um novo
método para sondagem.
-Eis a causa dos fracassos! Porque os enfermos não sabiam que
estavam sendo monitorados, os espíritos seguiam sem compromisso,
por isso os sinais se perdiam. Devemos instruí-los para que
saibam que estarão sendo monitorados, e quando mortos, que
se concentrem no que estão vendo, para fortalecer os sinais.
-Isto é cruel! – Bradou a Doutora Acerina. - Ninguém
quer saber que vai morrer. Nesse momento traumático, pedir
a frieza em nome de uma ciência? É desumano.
O Doutor Astatus se afastou em silêncio. Entre um paciente e
outro, aumentavam cada vez mais as vozes e vultos, definhava dia por
dia relembrando dos corpos: “Limia era meretriz, se o sensor
tivesse funcionado, teríamos as cenas do inferno; o Apóstulum
Aphanius era profeta, teríamos as cenas do apocalipse; o Auratus
era iluminado, teríamos as cenas do céu.”
E aqueles fenômenos? “Estão mandando sinais direto
para o meu cérebro. Mas, como? Deveriam estar no monitor? Há
algo errado com o sensor?”.
Um dia ao entrar no seu consultório, havia um manuscrito do
Doutor Pusillus:
“Desde que vi teus olhos em lanças, tentando trespassar
pelas fendas secretas da porta escura, meu pensamento ferveu. Pela
ciência, decidi participar da sondagem da morte, não
em nome da tua espiritualidade, mas em nome da minha ciência.”
Horas mais tarde, quando houve um tempo, encontraram-se no quarto
da morte:
-O medo nos une! – Disse o Doutor Astatus. – Não
consegues simular este suor de pavor no teu rosto. Temes a morte!
Este medo tu o chamas de ciência, eu chamo de espiritualismo.
Chame-o como quiser.
Muitas estratégias foram estudadas, as amarras de dogmas desatadas,
até que o Doutor Astatus apresentou uma idéia:
-Devemos simular uma morte! Acharmos um voluntário e levá-lo
ao estado de coma profundo, abaixar ao mínimo as funções
vitais, levá-lo ao limite da vida, então teremos tempo
para ajustes e procurar alguma coisa no monitor.
Um andarilho chamado Debemur Morti foi convencido. Pobre cobaia macilenta
que se deitou no leito, mediante paga de migalhas que fartaria a mesa
por alguns dias.
-Assim como são enviados astronautas para o espaço,
enviaremos o primeiro astronauta para a morte. – Era cheia de
euforia a voz do Doutor Astatus.
No dia marcado, o quarto estava carregado do arrepio dos que vagam
pelo abismo. Debemur Morti no leito ouvia os rumores dos doutores
como uivos dos lobos, em presságios da madrugada. O doutor
Astatus balbuciava:
-Checar pressão, batimentos cardíacos, a sonda. O cateter
intravenoso, primeiro começa a injetar o Pentotal.
Em cinco segundos o pobre se desligou do mundo. Apagou! Que se morresse
de verdade, nem as lágrimas do passado não lavaria as
dores. Mas, se no futuro souberem de verdades religiosas desbravadas,
de visões santas profanadas, nunca saberão: miséria!
miséria! a miséria o forçou a brincar de morrer.
-Em coma! Verifica os sinais da sonda. – O Doutor Pusillus estava
com uma clara ansiedade.
-Calma meu caro! Ainda sem sinal. Aplica agora o meu preparo, preciso
de coma mais profundo, mas temos que fortalecer os sinais. –
Orientou ao Doutor Astatus.
O corpo do astronauta da morte ficava cada vez mais gelado, desbotou-se
os lábios nas profundezas do sono, onde todas as dores e sonhos
poderiam findar-se.
-Os sinais começaram! – Bradou eufórico o Doutor
Astatus. -Uma pequena mancha fosforescente está se formado.
Agora está se definindo alguma coisa... parece com um túnel.
Há algo estranho, não perdemos o sinal mas há
uma barreira de intensa luz que ofuscou tudo, algo está impedindo
a transmissão...
Um alarme acusou algo inesperado, o coração do astronauta
da morte fibrilou!
-Meu Deus! Ele está morrendo de verdade. – Gritou o Doutor
Pusillus erguendo as mãos ao alto, num gesto desesperado àquele
que reina sobre os mistérios.
-Rápido... o desfibrilador, oxigênio... – O Doutor
Astatus falava e tremia.
Por alguns minutos a morte verdadeira roçou aquele moribundo,
mas o adeus prematuro não aconteceu, lentamente tudo foi se
normalizando.
-Nunca mais brincarei com a morte. – Falou o Doutor Pusillus
chorando.
Nos dias seguintes o Doutor Astatus expressava sua melancolia, todos
desistiram das experiências: “Covardes, o medo da morte
é pior do que o medo de desbravá-la.”
Depois frequentemente o viam entrar sozinho naquele quarto da morte.
Era visto que suava intensamente, já se percebia uma dificuldade
para andar.
-Depressivo! Deve ser afastado. – Preocupou-se a Doutora Acerina.
-Esperemos por um tempo que se recupere. – Respondeu o Doutor
Pusillus.
Num final de expediente, a Doutora Acerina o seguiu entrar num jardim
nos fundos do hospital. Ele soluçava e se retorcia com sintomas
de dor profunda. Entrou à alta madrugada em delírios,
ouvia vozes, via claramente os espíritos das pessoas que morreram
nas experiências. Não sabia o motivo, mas sabia que não
precisava mais dos sensores para ver e ouvir os espíritos.
Depois, fechou-se no quarto dos experimentos.
-Não apareceu trabalhar, o vi entrar no quarto da morte, deve
estar lá até agora. – De manhã a Doutora
Acerina comentou, ao darem por falta dele.
-Fanático, enlouqueceu. - O Doutor Pusillus falou com preocupação.
-Chorava! Devemos entrar para examiná-lo. – A Doutora
Acerina decidiu.
Abriram a porta e no leito o Doutor Astatus repousava imóvel,
sua tez era de um cadáver. Na sua própria cabeça,
havia antes grudado a sonda.
A Doutora Acerina pálida chamou por seu nome, examinou seu
corpo:
-Meu Deus! Está morto. – Em soluços ergueu as
mãos para enxugar as lágrimas.
-Há uma carta na mesa! – Bradou o doutor Pusillus- Ouçamos:
“O câncer corroeu minha vida, há anos morro aos
poucos em segredo, porque não queria lhes causar tristezas.
Quimioterapias, remédios, nada reverteu. Eis o motivo da minha
ansiedade em desnudar a morte: não me sinto preparado para
entrar pela porta escura. Desde a experiência com a morte simulada,
tenho fortes crises que chego a ver a porta da morte entreaberta,
então me conecto à sonda, porque sei que a qualquer
momento entrarei por ela. Quando eu partir, enviarei sinais, tenham-no
por consolo, porque mostrarei que existe vida após a morte.”
O doutor Pusillus chorou muito, e pensou: “Ele certamente transmitiu
tudo”.
-Nada, tudo escuro... não é possível! –
O doutor Pusillus Estava decepcionado.
-Não está ligado o computador. - Respondeu a doutora
Acerina, - Pelos delírios da doença, ele se esqueceu
de ligar. Se ele conseguiu mandar algum sinal, é tarde demais,
a força vital do corpo já se apagou.
-E agora, como saberemos se existe vida depois da morte? – Perguntou
o Doutor Pusillus, que tremia e tentava esconder seus soluços
entre os dedos das mãos.
-Só pela fé, meu caro! Só pela fé.
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