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Glória Brandão
Itabuna / BA

 

A inquilina misteriosa



O casal Dalva e Daniel morava na Rua Aurora, número 100. Daniel passava a semana na fazenda e Dalva na cidade. Ambos decidiram morar de vez na fazenda. O casal não tem filhos e vão alugar a casa.

Dalva caminha devagar, passeia pelos cômodos da casa, acaricia os móveis cobertos com lençóis brancos e pensa em todos os momentos bons que já viveu na sua casinha. Prefere não lembrar conflitos, nem situações desagradáveis. Seus pensamentos são interrompidos por Daniel que entra casa adentro com um martelo e pregos nas mãos, dizendo:

- Dalva, eu acabei de por a placa na parede, tem o número do meu telefone. Agora, é só aparecer o inquilino ou inquilina.

Ambos põem todas as caixas no carro, acomodam Hermes e Ferócio. Hermes é o gato de Dalva e Ferócio é o cão de Daniel. Ferócio, deveria ser um cão bravo, segundo o desejo de Daniel. O cão não late nem com uma mosca. Enquanto que Hermes, já fora visto miando com o nada. Lindo gato negro! Mas, cheio de cismas. Lá fora, as crianças observam a movimentação com euforia. Contudo, os vizinhos adultos estão tristes, pois o casal é simpático. O senhor Nelson, homem beirando os setenta anos, cético, argucioso, viúvo, leitor assíduo do Jornal Notícia Quente. Rita, senhora jovial, de confiança, amiga de Dalva para o que der e vier. Companheira de compras, de trocar receitas, de irem juntas para a igreja, de ver novelas juntas. Uma amigona! Anete, a amiga que ama as plantas e gosta de longas prosas. Contava casos, riam a vontade e quando Rita chegava o trio estava formado.
Todos se despediram. O casal viajou. O senhor Nelson ergueu os olhos para a placa: “aluga-se essa casa”, e comentou com Anete e Rita:
- Se pusesse o anúncio no jornal alugaria mais rápido.
Os dias iam passando e não aparecia ninguém para alugar a casa. De vez em quando os amigos conversavam por telefone. Isso, quando o sinal estava bom para o telefone de Dalva e Daniel.

O dia amanheceu. A rotina de sempre. Lá pelas três da tarde, para surpresa do senhor Nelson, a porta da casa de Dalva se abriu e lá de dentro saiu uma mulher de cor clara, trajando um vestido branco, com o cabelo preso, usando uma pequena bolsa de mão e óculos escuros. O homem levantou-se e se encostou à grade, apurou a vista e tentou ver a mulher direito. Quase não deu tempo. Ela fechou a porta por fora e saiu a passos firmes sem olhar para lado algum. Mas a narina do senhor Nelson pode sentir um perfume de...

Não tardou e todos os moradores já sabiam que a casa de Dalva estava alugada. Rita, Anete e o senhor Nelson, ficaram intrigados. Como a misteriosa mulher falou com os donos da casa e não falou nada com eles? Rita tentou telefonar para Dalva, mas a mensagem dizia sempre: “esse número não existe”. Desistiram.

A moradora era misteriosa! Nunca cumprimentou nenhum morador. Nunca chegou com uma feira do supermercado, nunca fora vista na feira livre do bairro, nunca abria as janelas, nunca cantava. De certo, sabiam os moradores mais próximos que ela recebia visitas, pois ouviam vozes e até gritos. Risadas não! É certo que ela usa um perfume com cheiro de flores. Nunca é vista quando retorna.
- Essa estranha mulher deve ser viciada em jogo e deve virar a noite no cassino. Comentou o senhor Nelson com Rita e com Anete.

- Ela também pode ser uma cafetina e ter uma casa de luxúria. Falou Anete.

- Não creio, ela não tem jeito de dona de bordel. Completou Rita.

A tal mulher é séria, não digo carrancuda, é indecifrável e lívida. Todos os seus vestidos são brancos e de um modelo só. Não é o mesmo. Ela não repete, se o fizesse, estaria com aparência de velho, ou de trapo. Desde a chegada dessa senhora que o assunto dos três amigos, era sempre em torno do mistério que envolvia a vida daquela mulher. Imaginavam que devia pagar o aluguel em dia, pois Dalva e Daniel não davam o ar da graça, o que constatava a satisfação.
Um dia o senhor Nelson arriscou-se:
- Bom dia madame! É provável que ela nem tenha ouvido o cumprimento do vizinho, pois não esboçou reação alguma, seguiu seu caminho deixando o perfume de flores no ar.

Certa manhã, Dalva e Daniel chegaram pra rever os amigos. Quanta alegria!
- Dalva, quem é essa mulher que você alugou a sua casa? Perguntou Rita. Dalva arregalou os olhos assustada:
- Eu aluguei a minha casa? Nós alugamos nossa casa Daniel?
- Ainda não. Respondeu Daniel. Todos os amigos se reuniram. Dalva decidiu ir até a casa.
- Vamos agora esclarecer esse mistério, minha chave nunca dei pra ninguém.
- Mas, ela está dormindo Dalva, você não pode abrir a porta assim... Comentou Anete. Mas Dalva já enfiava a chave na porta. Nisso, um rapaz magricela, entregou o jornal para o senhor Nelson, que o recebeu sem nem olhar a manchete. Todos estavam curiosos para esclarecer o mistério da desconhecida.
Dalva e Daniel entraram na casa, seguidos pelos amigos. Para espanto de todos, tudo estava igual. Os móveis silenciosos, cobertos com os lençóis, cadeiras empoeiradas... As camas intactas, com lençóis intocados e empoeirados. Não havia ninguém morando na casa. Nesse ínterim, o senhor Nelson repousou o jornal sobre a mesa e apesar das janelas fechadas, uma baforada de vento invadiu a sala, as folhas do jornal se levantaram e ele ficou aberto na página policial, onde todos foram atraídos para ler a legenda, acompanhada de uma foto:

“MISTÉRIOS ENVOLVENDO A MORTE DE SOFIA LEMOS – Sofia, que nasceu nessa cidade, passou a sua infância na Rua Aurora número 100, formou-se... Apareceu morta na Praça Luz, há um ano, agora, por ordem da justiça, seu corpo deveria ser exumado, mas, pasmem todos: O CORPO SUMIU DO CAIXÃO...”
Pasmos ficaram Rita, Anete e o senhor Nelson, pois a foto no jornal era a mesma mulher moradora da casa de Dalva e de Daniel. Os três amigos passaram muito mal. O casal entrou em choque. Espíritas e padres estão estudando o caso. A justiça está de mãos atadas.
O tempo passou e até hoje a casa da Rua Aurora, número 100, tem uma placa desbotada pelo tempo: “ALUGA-SE ESTA CASA”.

 
Contos "Além da Imaginação"- Março / 2010