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Hilda
Curcio
Brasília
/ DF
Confissões
(apenas aos cinquenta anos)
I
Escolho a música, e o volante de meu carro é pandeiro
microfone... No momento em que dirijo, rejo uma orquestra inteira
no volante do meu carro. Batuco, canto, danço, braço
direito, braço esquerdo erguido tateando a enlaçar o
vento - meu amado suposto. Olho de novo, retrovisor interno, retrovisor
externo direito, retrovisor externo esquerdo, todo o cuidado é
pouco... cantar... cantar é mister... batucar... Eclode uma
alegria que pode não acabar nunca junto com essa estrada que
me conduz a... O volante erra o caminho, e eu não quero mudar
a música, meu carro todo é uma gigantesca caixa de som
com direito a aplausos, plateia participativa completíssima.
Eu. Qualquer música me traz alegria imensa infinda penetrante.
Ouço uma buzina e outra, mas ninguém me incomoda mais.
Estou num show. Meu show.
II
Pra você é fácil – não é você
quem vai ficar sem você! Sou eu que vou ver você ausente,
muito ausente sempre de mim... Meu computador inutilizado por estes
dias em que não receberei suas mensagens... Viver sem elas
me é impossível. Sorte eu ter lembranças. Suas.
III
Vaidosa, gosto de banho, perfumes, uso creme no corpo todo (um para
cada parte – rosto, contorno dos olhos, lábios, colo,
seios, pernas, joelhos, cotovelos, pés) cada um com uma textura
diferente, conselho da dermatologista que, pra minha desgraça
e maior angústia, é linda. É. Impossível
sobreviver sem dermatologista. Creio que meu colo ainda seja desejável,
apreciável, seios palpáveis, sem silicone, meus seios
ainda são bonitos. Cacete!!! Odeio o ainda que sou sempre obrigada
a usar. Ainda... Claro! Acho que sou desejável, mas cadê
homem pra crer nisso também? (Risos. Também de mim.)
Homens ausentes. Todos. Ninguém se apresenta.
IV
No restaurante, após uma imensamente esperada (lipo)abdominoplastia.
Angústia de fazer desjejum, de almoçar, de lanchar,
de jantar... Melhor jejuar. Por que descansar os talheres (principalmente,
o garfo e a colher) sobre a mesa ou nas bordas do prato? Por quê?
Em restaurantes finos, então, os garfos estão sempre
cansados, porque descansam bastante já que levados à
boca assaz cansados (de quê?) ... enfim, descansam. São
descansados. Quisera ser anoréxica bulímica sei-lá-mais-como-de-magra
ex-gorda... Ah! Nada que o bisturi do Dr. Amauri não resolva...
Comamos, que a vida é muito curta e pesada (por que não
esperar também?) e, depois, eu não creio mesmo em reencarnação,
logo, quando poderei degustar tamanhas delícias senão
nesta mesma vida atual? O jeito é ser gorda, rezar muito pra
não engordar mais ainda e agradecer genuflexa, mãos
inclinadas ao céu, por não explodir após tamanha
gula.
V
“Parabéns a você...!” Que parabéns
o quê!? Odeio fazer aniversário, máquina de somar
a postos, mais um ano: 1955-2005: cinquenta anos de pura ansiedade.
Tentei não chegar até aqui, mas... Viva! Felicidades.
Coma!
Como o bolo, vencida. Inevitavelmente. Obrigada.
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