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Cássio
Andrade Fonseca
Três
Corações / MG
Chico
estranho
Ninguém
entendia o Chico. Também, com suas esquisitices, ficava mesmo
difícil entendê-lo. Em dias de calor se agasalhava, nos
meses de frio, nadava no ribeirão. Saía à rua
de pijama, um pé com chinelo, o outro, com botina. Jantava
de manhã, almoçava de tarde. Comia a casca, deixava
a banana. Tomava remédio para a dor que sentiria na semana
seguinte.
Mas ultimamente as coisas estavam piorando. Todos na Vila das Nuvens,
já acostumados com Chico, passaram a ter suas vidas influenciadas
pelas novidades que ele começou a inventar. Adaptou um relógio
e começou a controlar o tempo. Se tinha que ir ao dentista
ou queria dormir um pouco mais, segurava os ponteiros o máximo
que podia. Se estava aguardando algo ou alguém com hora marcada,
acelerava o relógio para que sua espera fosse pouca. E todos
tinham que seguir a sua vontade. Até as autoridades foram falar
com ele:
- Chico, deixe o tempo correr sozinho! – pedia o prefeito.
- Desse jeito os presos vão querer acelerar o tempo! –
alertava o delegado.
- Você está prejudicando o comércio da Vila! –
o repreendiam os comerciantes.
- Meus fiéis já nem sabem mais que hora ir à
missa! – repreendia o padre.
Mas Chico pouco ligava e, para piorar, descobriu uma forma de controlar
as estradas. Se queria ir para a Vila das Estrelas, e a estrada para
lá estava ruim, pegava a estrada para a Vila dos Cometas, e
a colocava em seu lugar. Trocou tanto as estradas que ninguém
mais conseguia chegar ao seu destino. As autoridades, reunidas, resolveram
dar um basta naquilo. O jeito foi prender o rapaz, e sem o relógio.
No dia seguinte à prisão, as coisas já estavam
voltando ao seu lugar. Mas uma chuva torrencial e constante tirou
o ribeirão do seu leito, e a água começou a invadir
a cidade. As autoridades não sabiam o que fazer para salvar
as pessoas da Vila e os seus pertences. Alguém, no meio do
povo, pediu que tirassem o Chico da prisão. Ele, com certeza,
teria alguma idéia. Em princípio, reticentes, as autoridades
nem cogitaram fazer essa concessão. Mas com a situação
se agravando, a água já invadindo o centro da Vila,
resolveram acatar o pedido daquele cidadão.
Chico, já na rua, com a água pelos joelhos, pensou,
pensou... Reuniu todos os moradores e pediu-lhes que fizessem grandes
balões com o que tivessem em suas casas. Assim que os balões
ficaram prontos, ele prendeu-os nas extremidades da Vila e os encheu
com ar quente. A Vila, então, flutuou e assim ficou por dois
dias até que o ribeirão voltou ao seu leito normal.
Todos, muito felizes, congratulavam Chico. Até as autoridades
resolveram oferecer a ele uma homenagem. Determinaram que uma nuvem
pairasse permanentemente sobre sua casa.
Mas aquilo tudo foi impacientando Chico. Ele que vivia sozinho, uma
vidinha pacata, de uma hora para a outra havia virado celebridade.
Já não suportando tanto assédio, informou para
seus conterrâneos que iria se afastar por uns tempos, para ter
um pouco de paz. E mudou-se para São Paulo.
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