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Mônica
Magalhães Cavalcante
Fortaleza
/ CE
Crônica
de um jardim quase seco
Quando abri as peças do jardim sobre a mesa da sala de jantar,
li primeiro o cartão explicativo e observei os modelos originais.
Para saber o que e por quê... Ora, modelo, ora, razão,
qual nada! Assim não seria construído "de dentro
para fora"!! Não, seria produzido pela intuição
de meus próprios dedos, antecipados pelas mãos livres.
Abri o primeiro saquinho de areia com sua quase infertilidade branca
(talvez devesse guardar o outro, para o caso de se derramar acidentalmente
o primeiro) e, com as pontas do ciscador de bambu, fui preenchendo
todo o pequeno lote de madeira, de modo a não permitir depressões.
Mas era tal o zelo que se desprendia dessa tarefa que não tardou
a família inteira acercar-se da mesa, sob o olhar curioso da
cachorra, e contemplar o inusitado. E foi um pipocar de palpites,
intromissões e co-autorias que, de repente e sem pedido de
consentimento, a obra se repartiu de artistas e se compôs em
família - árvore de natal compartida.
O menino pediu o ciscador, posicionou-o ao contrário e foi
alisando os granitos numa trajetória simetricamente reduzível.
Parecia pronta a terra batida.
- Por que não espalha o outro saco de areia? Assim fica muito
raso... - arriscaram do outro lado.
E por que não? Como tudo o que nunca guardei, abri a segunda
areia estilisticamente branca e improvisei um pequeno monte no canto
do terreno raso e plano. Nas encostas, finquei dois seixos maiores,
enquanto iam esparramando aleatoriamente o restante da areia, simulando
uma superfície montanhosa.
- As pedras são só essas? - perguntou o menino decepcionado
de incredulidade - eu tenho muito mais, e muito mais bonitas...
Daí apareceu na sala com um isopor orgulhoso de pedras, de
que nunca suspeitei, de todos os tamanhos e cores, algumas emboloradas
de segredo (os filhos têm pedras que a própria mãe
desconhece...). Então, exibiu uma branca, grandinha e contrastantemente
linda, e outra puxada ao vermelho, e outra minúscula cor de
chumbo, e outras... Ah, não, chega! Não venha pedregulhar
meu jardim inteiro! Bastam essas três. A branca se opondo a
outras escuras ganhou um quê de imaginário e de sedução;
depois, foi só pontuar as outras ao sabor do belo e deitar
suavemente o ciscador ao canto.
E o jardim vingou no móvel da sala, ao lado de um enorme regador,
que, por ele e com ele, encontrou uma razão de existência.
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