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Vicência
Maria Freitas Jaguaribe
Fortaleza
/ CE
Sem
necessidade de explicação
A menina era filha única. De pele muito clara, cabelos louros
e olhos azuis, dava a impressão de diafaneidade. Parecia que,
a qualquer momento, desafiaria as leis da natureza, criaria asas e
sairia voando. Para completar a impressão de que, na realidade,
ela não pertencia ao triste mundo material, comunicava-se com
alguém completamente invisível a olhos que não
os seus. Vez ou outra, dirigia o olhar para o lado e sorria. Às
vezes, balançava a cabeça, como se confirmasse ou negasse
alguma coisa. Em outras ocasiões, abria um livro e passava
as folhas, como se estivesse mostrando as gravuras a alguém.
Quando começou a ler – e lia bem com quatro anos –,
fazia-o sempre em voz alta, ou melhor, em meio tom, como se alguém
a estivesse escutando.
No início, os pais achavam aquilo engraçado, mas, com
o tempo, começaram a preocupar-se, pois sentiam como se uma
presença acompanhasse a filha todo o tempo. Levaram a menina
a uma psicóloga, que teve com ela algumas sessões e
concluiu não haver nada para gerar preocupação.
A menina era filha única, vivia só, por isso criara
uma amiga imaginária. Quando ampliasse seu círculo de
amizades, aquilo acabaria.
A amiga imaginária, no entanto, não atrapalhava as relações
da menina com as outras crianças. Ela ia à casa das
amigas, convidava-as a irem à sua casa. Quando os pais a levavam
ao shopping, ao cinema, ao parque, sempre pedia a companhia de uma
criança. Fazia amigos com facilidade. Mas, quando não
havia ninguém por perto, agia como se estivesse acompanhada
por alguém que só ela via.
Para a menina, aquela presença era algo natural. Desde que
se entendera por gente, tinha a sensação de que havia
alguém ao seu lado. Na verdade, era algo mais do que uma sensação;
mas não chegava a ser uma presença física. Às
vezes, ela pensava entrever um vulto sem feições. Uma
silhueta diáfana, que lhe dava, no entanto, a impressão
de que ouvia o que ela dizia, via o que ela lhe mostrava, mas, principalmente,
entendia o que ela sentia e como que lia seus pensamentos. Nos últimos
tempos, aquela presença vinha-lhe antecipando acontecimentos,
prevenindo-a dos perigos, protegendo-a, enfim.
Quando se aproximou o dia dos seus sete anos, e os pais lhe disseram
que iam preparar uma festinha, ela não quis. Como os pais insistissem,
ela disse que o dia de seu aniversário seria muito triste.
- Mas triste por que, minha filha?
- Não sei. Ela não me disse.
- Ela? Ela quem?
- Ela, a minha amiga.
No dia do aniversário da menina, chegou a notícia de
que sua avó paterna tivera um infarto e passava mal.
Os pais pensaram em coincidência. Mas, com a repetição
de episódios como aquele, começaram a desconfiar de
que a filha tinha o dom da premonição. E que aquela
amiga imaginária não era mais do que a manifestação
desse dom. E guardaram isso como um segredo de estado. Nem mesmo os
familiares tomaram conhecimento do fato.
O dia amanhecera quente. E era domingo. Os pais resolveram ir à
praia para escapar da sensação de sufocamento que oprimia
os bairros distantes do mar. Quando a mãe tirou a entrada de
banho e ficou só de biquíni, a menina fez um carinho
em sua barriga:
- Meu irmão já tá aí dentro.
- Que história é essa, filha? Você sabe que eu
não posso lhe dar um irmão.
- Eu sei, mas ele já tá aí.
- Foi sua amiga que lhe disse isso?
- Foi. E ela disse também que ele vai salvar a minha vida.
A mãe esboçou um sorriso e disse que bom que ele vai
salvar sua vida! E ficou observando a menina, que abria um buraco
na areia molhada e, vez por outra, ria e balançava a cabeça,
como se ouvisse alguém lhe falar.
Uma semana depois, a menina começou a apresentar manchas no
corpo e a queixar-se de fraqueza. Os exames confirmaram o prognóstico
do médico – leucemia. Única possibilidade de cura:
transplante de medula. Mas, como ela não tinha irmão,
era quase impossível encontrar um doador compatível.
Os pais entraram em desespero. A mãe chorava com frequência,
mesmo na frente da filha, que, um dia, sem mesmo desviar a atenção
do quebra-cabeça que montava em cima da cama, encorajou-a:
- Não chore, mamãe, você não sabe que meu
irmão vai me ajudar a ficar boa!?
A mãe, então, lembrou-se do que a menina dissera na
praia, há mais ou menos um mês. Ela não dera atenção
àquela história e nem mesmo a contara ao marido. Como
podia dar ouvidos à filha, se ela sabia que não podia
engravidar uma segunda vez? De repente, veio-lhe à mente que
já fazia quase dois meses que não menstruava. Como,
porém, suas regras sempre foram irregulares, não dera
atenção ao fato. Mas, a partir daquele instante, para
não perder as esperanças, agarrou-se à possibilidade
de estar grávida. Na mesma hora, pegou o telefone e marcou
consulta com o ginecologista. O exame clínico, confirmado depois
pelo exame laboratorial, disse-lhe que ela, realmente, estava gerando
um filho. O médico, meio atrapalhado, tentou uma explicação
para o que chamou de fenômeno. Mas ela não precisava
de explicação. Aliás, não queria explicação.
O importante era que a filha, agora, tinha uma chance.
No dia em que voltou do hospital, com o bebê nos braços,
viu a filha abrir a porta da rua, dizer adeus e soprar um beijo para
alguém, exatamente como fazia quando se despedia dela na porta
do colégio.
- De quem você está se despedindo, filha?
- Da amiga. Ela foi embora.
- Foi embora!? Por quê?
- Ela disse que agora, com a chegada do meu irmão, eu não
precisava mais dela.
Sem demonstrar tristeza, ou qualquer outro sentimento, como se nada
tivesse acontecido, a menina abriu o livro de contos de fadas cuja
leitura interrompera. Deitou-se no sofá e retomou a história
do ponto em que a deixara. Aquele foi o último dia em que ela
se referiu à amiga imaginária.
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