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Edmilson Soares dos Anjos
São Paulo / SP

 

 

Os passarinhos e o grande demônio


Os passarinhos estão entre os mais belos seres que Deus criou. São como pequenas gotas de vida, saltitantes e sonoras.
Pois bem, certo dia em que eu, num bosque, fugindo à balbúrdia da grande cidade, punha-me a admirar a multidão dos rouxinóis que ali cantavam, encontrei o Grande Demônio acocorado ao pé de uma árvore.
Olhei-o inquisitivamente e perguntei:
- Que fazes?
- Merda, - disse ele.
Incontinenti, levei os dedos ao nariz.
- Não, Filho do homem, - disse ele sorrindo vagamente - não me referi a fezes propriamente. É que tenho meditado a respeito de minha velha existência, e concluí que o conjunto dos meus feitos e das ações que instiguei assemelha-se a esse produto intestinal que os organismos expelem. Nesse estado de espírito vim recolher-me a esse bosquezinho. Será que voltarei a ser o anjo bom que sustentas eu ter sido? - perguntou com pequena ironia.
- Sossega, -disse eu - aprendi ser impossível que tal consigas. Mas como principiou tua angústia?
- Filho do homem, -continuou o Grande Demônio - discuti com o Altíssimo. Sempre fui obediente. Compareço às reuniões celestes e aplico sem pestanejar a lei. Para onde o Altíssimo diz: "Vai", eu vou; se diz: "Vem", eu venho; se diz: "Faze isto", eu faço. Ordem é ordem. As encomendas cumpro fielmente. Um terremoto aqui, um furacão ali, uma guerra acolá. Compreendo a finalidade. O Altíssimo quer que os homens o reconheçam como tal, e cumpram seus mandamentos. Envia-me a tais comissões, e pisca os olhos esperançoso: "e saberão que Eu sou o Senhor". Ora, sobejam as provas em contrário. Por tais sucessos, os homens jamais o reconhecerão. Os séculos me dão razão. Inutilmente tentei argumentar: Altíssimo, não adianta cortar rabo de lagarto. Cresce outro, e mais outro, enfim dezenas. Vamos passar a eternidade em vão trabalho. Ou se acaba de uma vez com o lagarto; ou se alarga um pouco mais a realidade; ou se altera tua lei que me afadiga.
Eu disse então com estudada calma:
-Que pensas, Grande Demônio,? Que serás tu quando o Altíssimo cansar-se do método que agora segue e abolir definitivamente o uso de tuas mãos, só ao mal afeitas? Que serás tu?
-Merda - disse ele.
Levantou-se e saiu rumo à cidade.
Eu fiquei a olhar as largas espáduas do Grande Demônio. E vi que ele seguia com seu bastão esmigalhando os ninhos de rouxinóis, com avezinhas ainda implumes, que ao seu terror não podiam fugir.
Bem ao longe , voltou-se para mim o Grande Demônio e riu. Riu seu costumeiro riso. Os rouxinóis cantavam, cantavam. Eu acenei-lhe com a cabeça. Mas sério. Porque gosto dos passarinhos.

 
Contos "Além da Imaginação"- Março / 2010