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Rubens
de Azevedo Muniz Junior
Santos
/ SP
Feliz
Natal, João de Deus!
O movimento é intenso, ônibus chegando e partindo, passageiros
desembarcando, embarcando, terminal Rodoviário da maior cidade
do Brasil. Desembarcando de um ônibus do Nordeste, uma mulher
segura um pequeno menino, magrinho, olhos grandes e tristes talvez
cinco anos. Ela deixa o menino junto de uma coluna, com sua sacola
de roupas, e diz para ficar quietinho, esperar, pois iria ao banheiro.
As pessoas passam apressadas, as horas passam desapressadas, o pobre
menino em pé, espera. A fome, sede e a vontade de ir ao banheiro,
suas companheiras. Já entardecendo, um homem e uma mulher vestidos
de fardas o pequeno menino para um abrigo provisório o levam.
Os anos passam, o menino que se dizia chamar João, de tão
bonzinho, as monitoras, funcionárias do grande complexo "educacional"
com grade nas janelas, acrescentam ao seu nome a palavra Deus, ficando
assim, João de Deus.
João de Deus dividia seu "lar" com mais 800 jovens
abandonados e infratores. Certo dia, os jovens resolvem tomar o local
e uma revolta se faz em dimensões maiores. A tropa de choque
é chamada, bombas de gás lacrimogêneo, João
escondido desde o início embaixo da cama na enfermaria. Quando
a boca de um grande cachorro sua pequena perna morde. Os jovens são
transferidos para outros complexos no interior do Estado, João
segue com seus amigos "Olho de Vidro" e seu irmão
Leandrinho.
Neste novo "lar", a vida é intermediada de surras
de vara de marmelo, palmatórias, sem qualquer razão
de ser, além atos imorais dos monitores e responsáveis,
contra os pobres meninos.
Todas as noites, Olho de vidro, dizia que um dia iria fugir levando
seu irmão Leandrinho, pois estava cansado de apanhar, ver seu
pequeno irmão ser molestado, assim como João de Deus.
Certa noite, quando a chuva era intensa, os ventos e raios cortavam
e açoitavam os telhados e vidraças, fogem. Seguem de
carona, andando, dormindo escondidos nas clareiras e campos ao lado
da estrada. Comiam frutas, chupavam cana e de vez em quando moradores
destes sítios um prato de comida ofereciam. Assim, após
30 dias, a Capital chegaram.
Na grande cidade, vivem nas ruas, dormem debaixo das marquises, tomam
banho nos chafarizes, no inverno se aquecem nas saídas do ar
quente do Metro nas calçadas.
Olho de Vidro outro caminho seguiu, seu irmão Leandrinho a
pneumonia para sempre levou.
João de Deus das esquinas fez o seu mundo, lavando para-brisas,
vendendo para algum espertalhão, balas, artigos chineses etc.
Os meses demoram a passar, mas para João valia a pena esperar,
pois logo chegaria o tempo que ele mais gostava. A cidade toda se
enfeitava, as luzes quais vaga-lumes, e as estrelas respondiam piscando
no compasso do canto dos grilos. Nas vitrines, João, Maria
e o menino Jesus em seu bercinho de palha. João passava horas
vendo o pequeno presépio, e uma agradável sensação
lhe envolvia, no pequeno berço de palha, no lugar do menino
Jesus, João de Deus se via. E o que mais esperava era quando
a Mãe Maria seu pequeno rosto beijava.
Guardara um pouquinho de dinheiro, mas o suficiente para comprar o
menino Jesus no seu bercinho de palha.
Mesmo nesta esta época do ano, quando as pessoas deveriam viver
o maior ensinamento daquele quem um dia revolucionou o mundo, ou seja,
Caridade, amar ao próximo com a si mesmo, João ainda
escutava quando de um carro se aproximava:
"- Sai, menino, vai sujar o meu carro!"
De capa invisível, passos de balé, "verônicas"
nos touros-carros, no meio da grande avenida, João como que
tomado pelo desejo de fugir, a vida arrisca.
Caminha sem cansar, descalço, até alcançar um
grande condomínio, as casas iluminadas, para. Em frente a uma
casa, sorrateiramente pela janela seus olhos deparam. A grande árvore
enfeitada, a mesa posta, dezesseis lugares. Tem sede, a sua frente
uma torneira, sua mãozinha em concha garimpa a fresca água.
Quando uma grande e forte mão seu pequeno ombro segura. Tenta
se desvencilhar e correr. Porém, a firme mão o segura
e uma suave e gentil voz soa:
" -Não tenhas medo, João de Deus, venha, entre,
vamos cear!"
O convite se faz no lar de José, Maria, seu Filho e amigos;
banho quente, roupas novas, até sapatos, depois um lauto jantar,
presentes aos pés da grande árvore coberta de estrelinhas
a brilhar. Depois, o aconchego do quarto com o teto coberto de carneirinhos
brancos, pequenas nuvens e muitas estrelinhas a piscar.
Em uma prece, agradece o menino Jesus do presépio pelos presentes,
sapatos, roupas, jantar, banho e cama quentinha, enfim, por tudo que
havia recebido. E assim adormece.
Na grande Avenida Paulista, a garoa molha o asfalto, os ponteiros
do relógio marcam meia-noite, os sinos dobram. Estendido no
piso, mortalha do negro piche, o corpo franzino de um menino, seu
braço estendido, sua mão entreaberta, "um pequeno
Menino Jesus no seu bercinho de palha.".
A chuva para, as estrelas sorriem, os anjos entoam Noite Feliz, a
família espera:
- Feliz Natal, João de Deus!
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