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Ju
Couto
Santos
/ SP
A
mudança da Lua
A Lua vivia triste. Julgava-se sem luz, sem cor, sem vida, sem amor.
O Sol, ah o Sol! Este sim, era brilhante, ofuscante, resplandecente.
Tão admirado e amado!
- Oh, destino cruel! Por que toda a beleza pra ele e nada, nadinha
pra mim?
E a Lua suspirava enquanto a vida seguia.
Eis que passou, bem rapidinho, o cometinha Rastro de Luz.
- Como vai amiga Lua?
- Mal como sempre, mas contente em vê-lo.
- Você está muito pessimista, mais do que na minha última
visita.
- Sim, mas isso foi há cinquenta anos. Continuo triste por
ninguém me amar, nem me admirar. Só você é
meu amigo. O meu vizinho Sol nem me enxerga porque me ofusca com seu
brilho.
- Você é linda! Já lhe falei antes. Não
tem luz própria, mas reflete a do Sol. Não percebe isso?
- Nunca notei. Só consigo ver o brilho dele...
- O seu problema é que ao lado dele não consegue ser
vista. Mude-se para a noite.
- Eu? Mudar-me? Com a minha idade? Nem pensar!
- Reflita bem. A Terra só tem as estrelas longínquas
para observar à noite. Você será bem-vinda. Decida-se
por ser feliz. Até a próxima visita.
- Até daqui a cinquenta anos.
Mudar-se?! Mas mudar-se para a noite seria uma mudança e tanto.
Não apenas de lugar, mas de atitude. Teria que girar ao redor
da Terra e, assim, surgiria à noite na face oposta ao Sol.
Sim, era possível porque a Terra girava enquanto o Sol, preguiçoso,
reinava absoluto no seu trono, sempre imóvel. E a Lua pensou...
pensou... O que tinha a perder? Era tão infeliz e solitária.
Então, decidiu-se.
Numa manhã, deixou o Sol sozinho e começou a girar em
torno da Terra. Entre assustada e esperançosa, surgiu na imensidão
negra da noite acompanhada por muitas estrelas pequeninas e distantes.
Para sua surpresa e alegria, o povo da Terra encantou-se com suas
formas mutáveis, fases como diziam, pois adquiria a cada noite
um contorno diferente, conforme sua posição em relação
ao Sol. Se, vista da Terra, estivesse na mesma direção
do Sol, era Lua Nova, pois sua face vista não era iluminada.
Então, noite após noite, a continuar seu giro, ia crescendo,
Lua Crescente, até ser vista completamente iluminada, Lua Cheia,
tão aguardada por sua beleza. Depois, Lua Minguante, ia, aos
poucos, se “escondendo”, até ser Nova outra vez,
em seu roteiro constante. Descobriu sua importância nas marés
e nas plantações. Ao seu brilho suave, chamaram luar.
Passou a ser admirada e cantada em prosa e verso. Testemunha das juras
de amor eterno trocadas pelos namorados.
Quando, novamente, Rastro de Luz visitou-a, já era feliz. Era
outra Lua.
- Lua amiga, você está tão bela! Uma pérola
no negro veludo da noite. Eu estava certo, não?
- Ah! Meu bom amigo... Como estava! Nem eu mesma sabia que tinha valor.
Agora apareço sempre à noite e deixo o dia para o Sol.
Com meu reflexo de luz, embelezo a noite e aqueço os corações.
- Eu mesmo me sinto mais aquecido quando estou perto de você.
- É, meu caro, amizade também aquece os corações.
- Já
tenho que ir. Até daqui a cinquenta anos. Bons passeios ao
redor da Terra!
- Até a próxima visita. Boa jornada pelas estrelas!
Despediram-se mais uma vez. No entanto, agora Rastro de Luz seguia
seu destino sem dó da Lua. Sentia grande orgulho da coragem
da amiga. Da bela amiga Lua.
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