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Graciana David de Meneses Cordeiro
Fortaleza / CE

 

 

Maravilhas do sertão


Numa certa ocasião eu fui passear na fazenda do meu pai e, lá chegando, encontrei os parentes, amigos e conhecidos à nossa espera com muita alegria e emoção.
Tal foi a acolhida que uns pegavam a minha maleta, outros me mandavam entrar e sentar, outros já oferecendo água e o meu predileto cafezinho com tapioca, e assim iniciavam sua conversação. Cada um queria dar as boas vindas, conforme sua educação.
Tudo era festa e muita satisfação, pela nossa chegada aqui no sertão.
E, como era tempo de farinhada, fomos conhecer a casa de preparação, coisa nunca vista pois só existe no sertão. Cada um fazia seu trabalho com alegria e veneração para mais tarde degustarmos os produtos da mandioca, sem esquecer o delicioso feijão de corda com o saboroso queijo de coalho, o milho verde, o inhame, a macaxeira, a batata doce, a abóbora e a saborosa melancia do nosso torrão.
Nossa! A mesa estava farta das maravilhas da plantação.
A farinha era uma beleza. O beiju nem se fala! O bolo de grude uma delícia e a tapioca de goma fresca era muito saborosa, pois para mim é a mais especial alimentação. São tantas ofertas especiais aqui no nosso sertão!
O que me surpreendeu foi a simplicidade e a hospitalidade com que cada um nos recebeu.
Era uma correria danada, cada um querendo dar um pouco de si e colocando tudo em nossas mãos.
Sabendo dos modos do sertão, tratei logo de me sentir em casa na companhia da nossa gente, toda cheia de amor e servidão.
Assim como na cidade temos os nossos costumes, aqui também se cumprem os velhos hábitos com precisão.
Sempre no cair da tarde todos se reuniam no alpendre para partilhar as maravilhas da sua plantação. E assim fomos logo nos acomodando para tal reunião.
Cada um falava da sua colheita com tamanha animação. Deste modo cada um apresentava seu trabalho e tudo corria com alegria, e mais animação ainda, para a próxima colheita e a nova plantação.
Mas a conversa não ficava só na plantação, falava-se de futebol, das notícias, das novelas e das novas músicas e das festas de São João.
Finalmente a noite dava os seus primeiros sinais, apresentando seu céu bordado de estrelas, já preparando o luar tão belo do nosso sertão.
Enquanto uns trocavam idéias e outros tocavam seu violão eu fiquei apreciando a beleza da plantação em meio ao luar do meu sertão.
E tal não foi a surpresa ao ter avistado no meio do milharal um homem de chapéu, totalmente parado e, visivelmente, de lado, sem nos dar a menor atenção. Não sabendo de quem se tratava, resolvi perguntar se todos estavam vendo, também, um soldado de chapéu no meio do milharal.
Todos olharam na direção por mim apontada, mas o silêncio foi a resposta.
E meu pai, sabendo do que se tratava, olhou para mim, e disse: Minha filha, aquilo não é um soldado, é um tronco de jacarandá, vestido de gibão e chapéu de palha, para espantar os maus olhados e os destruidores da plantação.
Nossa! Fiquei com muita vergonha, principalmente quando todos riram da minha ignorância do sertão, dizendo:
- Tadinha da menina da cidade, fez de um tronco um soldado e de um galho seco de milho uma arma sem munição. Ela não sabe o que é um espantalho, isso é coisa do nosso sertão.
Após esta explicação, reanimei minha coragem e fomos todos debulhar o nosso milho e feijão para fazer o próximo alimento.

 
Contos "Além da Imaginação"- Março / 2010