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André Alves Braga
São Paulo / SP

 

 

Goelabaixo


Estava sentado em minha mesa de trabalho, praticando meu oficio, como na maioria dos dias. Canetas, papéis, sistemas, minhas leais ferramentas serviam-me fielmente. O quadro negro, com inscrições quase rupestres, diziam-me o que fazer; como num plano militar: vencer o oponente era nosso objetivo. Soldados agitavam-se. Corriam para todos os lados, armados de formulários. O ataque não pode parar. Um vem em minha direção - bom dia - bate em minhas costas e segue. Havia algo errado, os pelotões murmuravam e olhavam-me diferente. Aqueles sorrisos não me agradavam. Continuei entrincheirado atento, com as armas em punho.
Enquanto passava os olhos num memorando, algo me chamou a atenção. Levantei a cabeça para ver o que era e tive uma visão horrenda: uma massa esverdeada, de olhar negro e fixo, vinha babando voraz em minha direção. A papada dele inflava e desinflava cadenciadamente, o que deixava aquela coisa escrota e amorfa mais avolumada. Sua pele parecia gelatinosa, gosmenta, uma carcaça que aparentemente fedia. Fiquei apreensivo. Suas patas ergueram-se em minha direção. Arregalei os olhos de medo, recuei o corpo. Elas agarraram meu pescoço. Seu toque era frio e pastoso. Começou a apertar-me, o que me deixou sem ar. Abria a boca desesperado, emitindo um ruído de engasgo. O que eu mais temia aconteceu: aquela nojeira inumana começou a entrar na minha boca. Seu gosto era horrível, uma mistura de lama e mofo, um negócio azedo. Numa atitude desesperada, agarrei os braços da cadeira, mas ela não esboçou nenhuma ajuda. Nesse momento pensei em minha casa, o que não adiantou em nada, a sensação s
ufocante não passava. Fiquei sem reação, esperando que o final daquela cena medonha chegasse logo. Suas patas traseiras batiam em meu rosto, querendo, numa tentativa forçada, descer por minha garganta abaixo. E conseguiu. Tentei vomitar, mas não obtive sucesso. Senti-me um lixo, não podendo fazer nada. Forçosamente engoli aquela merda. Aos poucos fui recuperando o fôlego, cuspi um resto de barro embolorado. O silêncio que se fez na sala durante meu estupro foi cortante. Agora ele está alojado em meu estômago, e não posso fazer nada. Esse troço nunca será digerido e dói-me saber disso. Não conseguirei expeli-lo nem junto com meus excrementos. Para sempre estarei com aquilo.
Triste, voltei minha atenção à tela do computador. Atendi a algumas exigências burocráticas que a máquina pedia, continuei meu trabalho. Já conformado com o inevitável, esbocei um sorriso. Deu a hora do almoço, levantei-me e, junto com meus companheiros, segui para o rancho. A vida tem dessas coisas.

 
Contos "Além da Imaginação"- Março / 2010