|
|
|
Antologia
on line |
Outro dia
Mal coloca os pés na agência, e o Tavares a chama: - Marina! Ligue para a Estela da seguradora, para saber se o contrato foi aprovado. - e enfatiza: - Isso é pra ontem! - diz, puxando as alças do suspensório. Tavares é o gerente-geral. Até é uma boa pessoa, mas consegue estressar todos que trabalham com ele. Ótima pessoa, péssimo profissional, pensa Marina ironicamente. Além do que, nunca vi alguém tão antiquado. Só ele mesmo para usar calças com suspensórios, camisa com abotoaduras, óculos aro de tartaruga e relógio de algibeira, aliás, o relógio era um acessório dispensável, para uma criatura que parou no tempo. O cabelo então, sempre aquele penteado "a vaca me lambeu". Marina vai para a sua mesa, e lá, continua analisando Tavares sarcasticamente, enquanto procura a agenda entre os papéis espalhados na mesa. Sente os olhos arderem. Finalmente encontra a agenda, e a folheia procurando o número do telefone de Estela. As letras parecem borradas. Preciso ir ao oftalmologista, pensa Marina. Vamos ver... Estela... Achei! Liga. - Alô,
quem fala? Marina
prossegue: No entanto, Marina não dá chance para a outra responder e continua falando: - Sabe como é o Tavares, ele está preocupado com essa aprovação... Estela interrompe: - Marina,
aqui é a Estela, sua manicure. Depois disso, Marina tenta ligar para Estela, mas é interrompida a todo o momento. E a tarde vai passando. Só muito tempo depois ela consegue ligar: - Alô,
posso falar com a Estela? Era só o que faltava, agora liguei para um jardim de infância, pensa Marina. - Tudo
bem, tchau nenê! - Marina desliga, e diz em voz alta: Marina olha para ele desanimada. - Vamos Dona Marina, o tempo urge! - diz, já saindo da agência. "Urge! Não bastasse a aparência antiquada, também o seu modo de falar é arcaico. Museu ambulante!" Marina remói sua raiva, enquanto trabalha. Finalmente, ela consegue falar com a Estela para resolver o assunto do tal contrato. Porém, o seu dia continua agitado. "Urge... Urge..". As palavras de Tavares ainda estavam ecoando em sua mente, quando vê que já passou meia hora do seu horário de trabalho. Então, ela lembra que tem dentista. Pega a bolsa e sai às pressas, porque ainda tem que passar em casa. - Chegando
mais cedo?! - Diz a mãe. Enquanto ouve, Marina imagina o Tavares todo alterado ao telefone, repetindo pela milésima vez o seu ritual diário de puxar as alças do suspensório, ajeitar os óculos, olhar o relógio de algibeira e conferir se as suas abotoaduras estão no lugar. Ahh... Tavares... Provavelmente ele coloca naftalinas nos bolsos, para preservar a sua antiguidade. Marina voa em seus pensamentos. De qual período da história ele saiu? Tavares continua falando, desfiando o seu rosário de reclamações. Tavares e suas expressões antiquadas... Antiquadas... Antiquário... Ela continua divagando. Mil pensamentos dançam em sua mente em frações de segundo. E em seus devaneios, lá está Tavares, como um padre discursando seu sermão. Tavares e seu sermão em latim... Latim... De repente, vem a sua cabeça a expressão "carpe diem". Eu deveria era aproveitar o meu dia... Mais um dia... Menos um dia... O que não tem remédio, remediado está... Então, ela interrompe Tavares bruscamente: - Aqui
não é a Marina. - fala com voz de taquara rachada. A mãe a olha espantada, e pergunta: - O que é isso?! Marina senta tranquilamente no sofá, ainda lembrando de tudo que havia acontecido naquele dia, e tem um ataque de riso. Ri até chorar. Claro que o Tavares vai encher a caixa postal do seu celular, e amanhã ela terá que dar mil explicações. Mas isso acontecerá amanhã. E amanhã é outro dia... |
|
Contos
"Além da Imaginação"- Março
/ 2010 |