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Iara Clarice Sabino Alves
Guaramirim / SC

 

 

Outro dia


Enquanto almoça, Marina lembra dos assuntos que tem para resolver. Está ainda mergulhada em seus pensamentos, quando percebe que é hora de voltar para o trabalho. Ela ocupa o cargo de gerente administrativo numa agência bancária.

Mal coloca os pés na agência, e o Tavares a chama:

- Marina! Ligue para a Estela da seguradora, para saber se o contrato foi aprovado. - e enfatiza:

- Isso é pra ontem! - diz, puxando as alças do suspensório.

Tavares é o gerente-geral. Até é uma boa pessoa, mas consegue estressar todos que trabalham com ele. Ótima pessoa, péssimo profissional, pensa Marina ironicamente. Além do que, nunca vi alguém tão antiquado. Só ele mesmo para usar calças com suspensórios, camisa com abotoaduras, óculos aro de tartaruga e relógio de algibeira, aliás, o relógio era um acessório dispensável, para uma criatura que parou no tempo. O cabelo então, sempre aquele penteado "a vaca me lambeu".

Marina vai para a sua mesa, e lá, continua analisando Tavares sarcasticamente, enquanto procura a agenda entre os papéis espalhados na mesa. Sente os olhos arderem. Finalmente encontra a agenda, e a folheia procurando o número do telefone de Estela. As letras parecem borradas. Preciso ir ao oftalmologista, pensa Marina. Vamos ver... Estela... Achei! Liga.

- Alô, quem fala?
- Estela.
- Estela, é a Marina. Tudo bem?
- Tudo...

Marina prossegue:

- Pois é, estou ligando para saber do contrato.
- Mas...

No entanto, Marina não dá chance para a outra responder e continua falando:

- Sabe como é o Tavares, ele está preocupado com essa aprovação...

Estela interrompe:

- Marina, aqui é a Estela, sua manicure.
- Desculpe Estela, me enganei! - diz Marina rindo.
- Percebi que o assunto não era comigo.
- Ai menina! Estou estressadíssima!
- Estou vendo!
- Mas já que eu liguei, posso marcar um horário para sábado?
- Sim, qual horário?
- Às dez... - Só então Marina percebe o Tavares batendo na sua mesa com uma caneta.
- Certo, tchau Estela!
- Está com tempo, hein Dona Marina! - e continua:
- O relatório das contas novas está pronto?
- Sim, vou imprimir.
- Já não era sem tempo! - diz, ajeitando os óculos.

Depois disso, Marina tenta ligar para Estela, mas é interrompida a todo o momento. E a tarde vai passando. Só muito tempo depois ela consegue ligar:

- Alô, posso falar com a Estela?
- Aiô... Tia... - diz uma voz de criança.

Era só o que faltava, agora liguei para um jardim de infância, pensa Marina.

- Tudo bem, tchau nenê! - Marina desliga, e diz em voz alta:
- Hoje é o dia!
- Dia do quê? - pergunta Tavares, se aproximando. Mas ele não espera resposta e fala:
- Marina, eu estou saindo para uma reunião. - e emenda:
- Não esqueça de conferir os cadastros novos.

Marina olha para ele desanimada.

- Vamos Dona Marina, o tempo urge! - diz, já saindo da agência.

"Urge! Não bastasse a aparência antiquada, também o seu modo de falar é arcaico. Museu ambulante!" Marina remói sua raiva, enquanto trabalha.

Finalmente, ela consegue falar com a Estela para resolver o assunto do tal contrato. Porém, o seu dia continua agitado.

"Urge... Urge..". As palavras de Tavares ainda estavam ecoando em sua mente, quando vê que já passou meia hora do seu horário de trabalho. Então, ela lembra que tem dentista. Pega a bolsa e sai às pressas, porque ainda tem que passar em casa.

- Chegando mais cedo?! - Diz a mãe.
- Não!
- Mas agora são cinco horas, Marina.
- Não acredito! E eu saí correndo, porque tenho dentista hoje.
- A sua consulta não é amanhã?
- Mãe, hoje não é dia 31?
- Não, hoje é dia 30.
- Nossa! Preciso de férias! Tive um dia horrível. O chato do Tavares me chamou a cada minuto. Você acredita que ele... - Toca o celular. Marina atende:
- Alô, Marina! Aonde você está? Eu exijo uma explicação, e...

Enquanto ouve, Marina imagina o Tavares todo alterado ao telefone, repetindo pela milésima vez o seu ritual diário de puxar as alças do suspensório, ajeitar os óculos, olhar o relógio de algibeira e conferir se as suas abotoaduras estão no lugar. Ahh... Tavares... Provavelmente ele coloca naftalinas nos bolsos, para preservar a sua antiguidade. Marina voa em seus pensamentos. De qual período da história ele saiu? Tavares continua falando, desfiando o seu rosário de reclamações. Tavares e suas expressões antiquadas... Antiquadas... Antiquário... Ela continua divagando. Mil pensamentos dançam em sua mente em frações de segundo. E em seus devaneios, lá está Tavares, como um padre discursando seu sermão. Tavares e seu sermão em latim... Latim... De repente, vem a sua cabeça a expressão "carpe diem". Eu deveria era aproveitar o meu dia... Mais um dia... Menos um dia... O que não tem remédio, remediado está... Então, ela interrompe Tavares bruscamente:

- Aqui não é a Marina. - fala com voz de taquara rachada.
- Desculpe, foi engano... - diz Tavares desconcertado.

A mãe a olha espantada, e pergunta:

- O que é isso?!

Marina senta tranquilamente no sofá, ainda lembrando de tudo que havia acontecido naquele dia, e tem um ataque de riso. Ri até chorar. Claro que o Tavares vai encher a caixa postal do seu celular, e amanhã ela terá que dar mil explicações. Mas isso acontecerá amanhã. E amanhã é outro dia...

 
Contos "Além da Imaginação"- Março / 2010