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André
Leite Fernandes
Crato
/ CE
Noites
na fazenda
Em uma noite de insônia, que me ocorria mais ou menos uma vez
por semana, ouvi os cães latirem escandalosamente da cacimba,
há uns 500 metros de casa. Peguei a roçadeira que tinha
e saí para verificar. À medida que andava ouvia os latidos
intensos dos cães adultos. Não conseguia vê-los
pois estavam embaixo de um grande pé de juá que apesar
da lua clara os protegia com sua sombra negra. A princípio
pensei ser pessoas tentando roubar o motor da cacimba, porém,
ao me aproximar não vi mudança da máquina. Estando
apenas a uns dez metros dos cães preferi não entrar
debaixo da árvore visto que não enxergaria nada e poderia
pisar em algo ou bater com a cabeça. Sabendo que estes cães
foram muito bem treinados para caça, os deixei se divertindo
com o que quer que fosse.
Estando sozinho naquela casa grande, por volta da meia noite, começou
uma chuva torrencial. Estava dormindo em minha cama. Um barulho altíssimo
dos pingos que pareciam mais baldes deágua, clarões
de relâmpagos seguidos trovões altíssimos. Nesse
dia senti medo, medo da casa cair sobre mim, tive vontade ir pra debaixo
da cama. Acendi a luz do banheiro para me orientar se fosse preciso
e quando virei para voltar para cama, vi novamente o vulto rápido.
Deitei-me e adormeci após rezar para estar vivo dia seguinte.
Em um dia de chuva, após chegar da faculdade senti-me tomado
por espíritos ancestrais primitivos. Troquei de roupa, vesti
um calção, passei carvão nos dedos e passei no
rosto e no corpo semelhante aos indígenas e comecei a dançar
na sala com a luz acesa ao som da chuva e dos trovões. Criei
um ritual muito alegre e harmônico. Aos poucos fui entrando
em transe e perdendo o controle dos movimentos. Dançava olhando
para o chão balançando os braços e andando em
círculos. Comecei a perder os sentidos a babar. Abri os olhos
não sei quanto tempo depois. Estava deitado no chão
suado. A chuva havia parado. Levantei-me com preguiça, tomei
banho e fui dormir tonto. No outro dia tentei lembra o que acontecera,
mas foi em vão. Nunca mais repeti aquilo.
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