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João
Francisco Lins Maciel Borges
Belém
/ PA
Foi
o boto!
A pacata Mançué, localidade encravada em pleno coração
da selva amazônica brasileira, guarda um grande repertório
de lendas, destacando-se, dentre outras, a do “Curupira”
(minúsculo ser fogoió, com pés virados para trás,
considerado a sentinela da flora e da fauna, tendo ainda o dom de
ficar invisível), a da “Boiúna” (desmesurada
cobra, cujos sulcos que deixava ao rastejar pela terra firme se transformavam
em igarapés) e a do gigante “Mapinguari” (espécie
de monstro peludo que possui somente um olho na testa, a boca no lugar
do umbigo e os pés em formato de pilão).
Todavia, a mais conhecida e fascinante é a lenda do Boto, um
cetáceo mamífero da água doce, que, nas noites
de festa, se transforma em homem, trajando elegante roupa branca,
para dançar e, se possível, namorar e transar com o
mulherio. Como tem um buraco no centro da cabeça, para esconder
sua real identidade, o boto usa um chapéu também branco.
Mijardina Guariroba, no fulgor de seus dezoito anos, pode não
ser a mocinha mais bonita de Mançué. Mas, de longe,
é a mais fogosa, daí sua alcunha de Mijardina “cobra
mole”, devido ao remelexo ritmado de suas ancas quando caminha,
a ponto de deixar qualquer macho se babando.
Mijardina é órfã de pai. Sua mãe, dona
Capitulina Guariroba, é uma mulher simplória e sem instrução
que acredita em tudo que lhe contam, principalmente partindo dos lábios
de sua melhor amiga, a tagarela Gravitolina Goela. Foi através
de Gravitolina que dona Capitulina conheceu a lenda do “Boto”,
que levou para o seu subconsciente como se verdade fosse.
A partir de então, dona Capitulina não se cansava de
pedir a filha para ter cuidado com o tal boto, pois era um galanteador
de primeira linha e poderia lhe fazer mal. “Fazer mal”
a uma moça, no linguajar amazônico, significa desvirginá-la.
Fazer mal? Bom, vá lá que seja!
Mijardina estava louca para unir seus trapos com alguém que,
além de gostoso, fosse também gastoso. Enquanto isso
não se concretizava, alimentava a fantasia de copular com o
boto, dado sua fama de ser muito carinhoso, bem dotado e levar a moçada
ao êxtase total. Afinal, era voz corrente que “quem provou,
aprovou”. E amanhã, sexta-feira, vai ter festa. Quem
sabe o boto não pinta no pedaço, remoía Mijardina.
Pelas tantas da madrugada já de sexta-feira, chega em Mançué
o sobrinho de Gravitolina Goela. Seu nome de batismo é Serafim
da Ressurreição, mas deveras conhecido, na capital,
como “Pai D’égua de Ologum”, o babalorixá
que veio tratar da espinhela caída de sua tia.
Como chegou tarde e cansado, Serafim morgou até por volta de
18 horas. Acordou e, mesmo sem fazer a higiene bucal, vestiu seu traje
de babalorixá, acendeu o indefectível charuto e encheu
uma pequena cuia com cachaça. Deu umas baforadas e tomou uns
tragos, incorporando-se no Pai D’égua de Ologum. Deu
início à sessão de descarrego da doença
de Gravitolina.
Serafim da Ressurreição, devido a sua condição
de pai de santo e por ser uma sexta-feira, obrigatoriamente tinha
que se vestir todo de branco, sem exceção de peça
alguma do vestuário, inclusive as íntimas. Como tinha
complexo de sua “testa continuada” (calvo até a
metade da cabeça, a partir da fronte), tratou de encobri-la
com um bonito chapéu panamá, obviamente de cor branca.
Todo janota, começou a perambular por Mançué,
quando deu de cara com um animado arrasta-pé no único
clube da localidade que, na oportunidade, tocava um carimbó.
Ao entrar no recinto, foi aquele alvoroço. As meninas todas
se assanharam. O pai de santo não perdeu tempo, nem deu sopa,
dançando com várias delas.
Mijardina Guariroba topa com aquela figura elegante. Como era de se
esperar, toda excitada, se bandeia para Serafim. Dançaram um
xote e um lundu. Após, foram conversar na porta do clube.
Conversa vai, conversa vem, Mijardina convida Serafim para passear
nas escuras margens do igarapé. Lá chegando, não
deu outra. Mesmo no chão enlameado, amam-se como nunca, a noite
inteira. Enfim, Mijardina é deflorada, perdendo seu selinho.
Ainda estava escuro quando se despedem com um beijo abrasador. Como
a casa de Gravitolina Goela, de onde se encontrava o casal, ficava
em linha reta na outra margem do igarapé que, por sinal, estava
na vazante, o pai de santo atravessou, não se sabe se a nado
ou andando, desaparecendo na escuridão. Serafim da Ressurreição
viajou na manhã daquele mesmo sábado sem nada contar
à sua tia.
Dona Capitulina estava aflita com a ausência da filha até
aquela hora, pois era a primeira vez que isto acontecia. Mijardina,
toda sorridente, chegou já amanhecendo. Vendo a roupa da filha
toda suja e parcialmente rasgada, perguntou-lhe o que se sucedeu.
Mijardina puxou a mãe pelo braço e o fez sentar ao seu
lado no sofá. Sem vacilo algum, narrou, em seus mínimos
detalhes, sua versão para os fatos.
Passaram-se alguns meses. Mijardina Guariroba já não
conseguia esconder sua prenhez.
Gravitolina Goela, ao visitar a amiga Capitulina, no esplendor de
sua curiosidade, pergunta quem tinha sido o autor da gravidez de sua
filha.
Foi, então, que dona Capitulina Guariroba, no esplendor de
sua ingenuidade, de pronto responde:
- Foi o Boto!
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