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Eliane Maria Vani Ortega
Regente Feijó / SP

 

 

A menina que queria ser bailarina


Uma menina, como tantas outras, alimentava o sonho de ser bailarina. Em toda a sua infância, as brincadeiras prediletas eram as que podia dançar. Dançava em grupo, em trios, em duplas, mas o que mais lhe agradava era quando dançava sozinha. Imaginava que estava num grande palco colorido, iluminado. Via uma platéia silenciosa, que segurava a respiração para não atrapalhar a sua coreografia.
A menina bailarina crescia e, aos poucos ,ia percebendo que a sua realidade não lhe permitiria um palco enorme, colorido, iluminado, e, provavelmente, uma plateia real não seria possível. Contentava-se com as imagens do seu canto encantado, com sua platéia dedicada, fiel e silenciosa.
Não pode estudar para ser bailarina. Sua condição de garota de família pobre não permitia tanto glamour. Teve que escolher uma profissão que lhe garantisse o sustento, num mundo em que essa tarefa na maioria das vezes, é difícil.
A menina estudou as letras, os números, e as suas possíveis combinações. Não me contou a profissão que escolheu. Apenas me disse que gosta do que faz, mas o mais importante, é que a mulher em que a menina se transformou, continua dançando. Sua plateia continua lá, em silêncio, segurando a respiração. O palco já não se apresenta tão colorido, nem tampouco, grande, mas, segundo ela, é bastante iluminado. O sol é parte integrante de sua fiel plateia e sempre ilumina a mulher dançando.
Não sei dizer se a mulher bailarina dança bem. Nunca a vi dançar. O que sei é que quando ela conta que dança, em seus olhos vejo um brilho intenso e então, penso que não é preciso vê-la dançar para saber que ficaria feliz em compor a plateia que tem o privilégio de assisti-la.
Recentemente, a bailarina descobriu que podia dançar não apenas com os pés, mas com as mãos. Podia dispor as letras e números que aprendeu na escola de forma a construir uma coreografia. A bailarina começou a escrever e não consegue mais parar. Desliza as palavras pelo papel branco ou amarelado, e baila sem parar. As letras se juntam, o palco iluminado e cheio de linhas oferece o local e então, o espetáculo acontece.
A menina não conseguiu tornar-se uma bailarina famosa, mas me contou que é feliz porque pode fazer com que as palavras se movimentem, no ritmo que quiserem, com liberdade. Sente que pode continuar a bailar, sempre, não importa como, nem onde. Importa que seu bailado seja intenso.
Da última vez que vi a bailarina, ela estava escrevendo uma poesia. Pude ler. Enquanto lia, me senti num enorme palco, colorido, iluminado. Vi uma plateia silenciosa, atenta. Sentei ao lado dos expectadores e então, pela primeira vez, pude contemplar uma bailarina que dançava com as mãos, ignorando a dimensão do espaço e do tempo. Havia algo de real nesse espetáculo. A bailarina, como todas as outras que existem no mundo real, estava dançando na ponta dos pés.


 
Contos "Além da Imaginação"- Março / 2010