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Julio
Cesar Novaes Ferreira
Pindamonhangaba
/ SP
Uma
viagem ao Rio
...Era o ano de 1963, e as pessoas esclarecidas da cidade estavam
cada vez mais interessadas nos acontecimentos políticos do
país, mas o único meio de comunicação
era o rádio e outras informações que alguém
trazia de outras cidades. Em janeiro, Jango, apelido de João
Goulart, promoveu um plebiscito pedindo aos eleitores que se manifestassem
a favor ou contra o presidencialismo. Com a vitória deste,
Jango teve seus poderes de volta. Nessa nova fase de seu governo,
ele propôs o Plano Trienal. Para colocar em prática esse
plano, era preciso um grande empréstimo de dinheiro, mas não
conseguiu apoio total dos EUA que pretendiam enfraquecer o governo
e não ajudá-lo. Mas os estudantes apoiavam as propostas
de Jango. E Santa Rita do Jacutinga estava tomando conhecimento aos
poucos de tudo aquilo...
Zezé procurava manter o cinema em condições normais.
Apesar do aluguel dos filmes estar ficando caro, ele conseguia preços
especiais indo negociar na própria distribuidora na cidade
do Rio de Janeiro. E numa dessas idas à capital fluminense,
ele resolveu levar o filho mais velho de sete anos. A viagem foi feita
de carona num caminhão de um amigo que fora buscar uma carga.
Saíram de madrugada, mas a poeira já estava presente
na estrada de terra batida, a longa e cansativa viagem por caminhos
ruins até chegar ao Rio. Isso foi sofrível para o menino
que chegou em péssimas condições ao destino,
pois passou muito mal durante o trajeto. Chegaram um pouco antes da
hora do almoço, passearam um pouco numa praça e logo
se dirigiram a um restaurante próximo à praia da Urca.
Seu pai pediu algo para comer, mas o menino não conseguia comer
nada, pois não estava se sentindo bem. Então, em certo
momento disse:
- Pai, estou com vontade de vomitar!!
Seu pai pediu ao garçom que ficasse com o menino por alguns
instantes e foi até uma farmácia ali perto, trazendo
rapidamente algo para o menino tomar. Disse depois:
- Vou rezar e pedir ao papai do céu para que ajude você
a melhorar rápido, está bem assim?
Ele não disse nada, estava com o rosto apoiado na mesa a esperar
que tudo se resolvesse... Mas o tempo foi passando e criança
não tem paciência! Então perguntou ao pai:
- Está demorando o papai do céu atender, ainda não
passou!!
Seu pai sabia que era só uma questão de tempo para que
ele melhorasse, mas tinha que animá-lo! Então respondeu:
- Calma, é que aqui é muito longe do céu. Lá
em Santa Rita é muito alto, fina nas montanhas e bem mais perto
do papai do céu. Nós estamos aqui bem junto ao mar,
sendo mais baixo, a oração vai demorar para chegar lá.
Tenha um pouco de paciência, já vai passar...
Acreditando nas palavras do pai, o menino voltou a apoiar a cabeça
sobre a mesa, ficando quieto.
A hora foi passando, então o seu pai perguntou se estava melhor.
Diante da afirmativa, ele resolveu pedir algo mais leve para o menino
comer. Houve uma visível melhora depois que ele comeu: recuperara
a cor e estava já falando pelos cotovelos, querendo saber de
tudo. Depois que saíram do restaurante, foram passear e as
novidades eram muitas para ele. Por onde iam, o menino se encantava.
Seu pai quis compensar a situação e o levou a lugares
que ele nunca imaginava que existissem... Viu o mar pela primeira
vez, mas não chegou a entrar nele, pois isso não estava
nos planos do pai. À noite, seu pai o levou ao teatro da Rede
Tupi de Televisão, mas como era ainda uma criança, não
pôde ficar muito tempo no interior do teatro, embora tenha se
deslumbrado com o pouco que viu. O televisor ainda não era
muito comum em sua cidade, só alguns o possuíam. Enquanto
seu pai tratava dos aluguéis dos filmes, ele ficou com alguém
numa sala vendo o programa no aparelho de TV,
o qual acabara de ver pessoalmente no interior do teatro. Uma moça
toda vestida de forma estranha para ele, com muitos brilhantes na
cabeça e nas roupas, é quem tomou conta dele até
seu pai voltar. Anos mais tarde veio saber que ela era uma atriz famosa
de nome Neide Aparecida e que estava ali aguardando a hora de entrar
em cena. A espera no camarim foi interessante para o menino do interior
que ficava curioso em ver tudo aquilo ao seu redor, sendo constante
o vai-e-vem de pessoas vestidas de forma antes nunca vista por ele.
Eram fantasias usadas no programa da Rede Tupi que estava sendo transmitido
naquele momento de nome "Balança mais não cai".
Ficou ali por algum tempo até seu pai voltar, quase às
onze horas da noite. Já estava dormindo num sofá quando
seu pai o tomou no colo e o levou para um táxi que os esperava
na porta do teatro. Chegaram ao hotel e o menino foi colocado em sua
cama, dormindo até o outro dia.
Foi acordado cedo, pois teriam que voltar logo para sua cidade. Seu
pai o levou para tomar café e se preparar para ir embora, quando
chegou o mensageiro com os filmes que ele havia alugado. Seu pai levantou-se
e foi atender o homem. Enquanto isso, o menino ficou brincando com
a chave do quarto que estava em cima da mesa. Num dado momento, ele
se levantou e foi até uma sacada que havia ali perto, olhando
através da grade o movimento da Rua do Ouvidor quando, de repente,
a chave escapou de sua mão e caiu numa marquise que havia logo
abaixo. Ele ficou desesperado, correu para a sua cadeira e aguardou
quieto o seu pai voltar, achando que teria grandes problemas em ter
perdido a chave. Seu pai voltou, disse-lhe que iriam embora, procurou
pela chave para poder acertar as contas do hotel, mas não a
encontrando, perguntou a ele se a tinha visto. Aí o menino
respondeu meio sem jeito que ela havia caído na rua, contando
como aconteceu. Então eles foram até a sacada
verificar... Seu pai era uma pessoa calma, virou-se e disse:
- Não se preocupe, vou falar com o gerente, ele é meu
amigo.
Sentiu-se aliviado com as palavras do pai, achou que levaria o maior
pito, mas tudo deu certo. O gerente foi educado, dizendo que não
haveria problema. Assim eles deixaram o hotel, voltando no mesmo caminhão
que os trouxera para um passeio inesquecível.
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