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Ruandro
Knapik
Quatro
Barras / PR
Ovos
Domingo à noite e Jorge resolveu sair. Pedro ligou para ele
um dia desses dizendo que tinha encontrado um restaurante que servia
bacalhau com azeitonas pretas e, de repente, ele quis comer isso.
Foi para lá. "Porto Restaurante", um ambiente agradável
e caro. Jorge tinha um cartão de crédito.
Comeu e gostou. Pagou na mesa. Quando estava se levantando para ir
embora Jorge viu uma moça no caixa do restaurante e após
ver ela movimentado dinheiro vivo, pensou, ou é rica ou é
burra. Burra porque neste país andar com dinheiro em espécie
só no interior. Segurança. Ele morava numa cidade grande
tipicamente tupiniquim. Terra dos cartões de crédito.
Na verdade Jorge era um tanto limitado, fruto desse mundo padronizador
e pré-disposto e, entre um monte de coisas que uma pessoa pode
ser ele definiu aquela moça em apenas duas. Jorge.
Jorge ficou olhando e a moça não estava pagando a conta,
ela comprava alguma coisa redonda, pequena e brilhante, parecia um
ovo. Mas um ovo? Quem compraria um ovo num restaurante? E hoje em
dia para que serve um ovo? Só em pó ou pasteurizado
nas indústrias alimentícias. Ovo é coisa pré-histórica.
Ninguém usa ovo. Jorge era curioso e um crítico vazio,
aqueles que desdenham tudo que não tem e que querem ter, e
ainda tem opinião mesmo que totalmente infundada sobre tudo
(é, deu para perceber).
Jorge não se contentou com essa observação e
ligou para Pedro perguntando se ele sabia de ovos brilhantes naquele
restaurante. Um souvenir? Claro que Jorge queria na verdade informalmente
falar para Pedro que tinha ido num dia qualquer, sem ter um motivo
ou um dia de alguém específico, à noite, naquele
restaurante caro. Essa vida de status obrigatório é
predisposta no que já se discutiu. Pedro não sabia desses
ovos brilhantes e disse isso para Jorge, além daquele trivial
"nossa, você está ai hoje, que legal, eu gosto daí",
uma fala típica de quem percebe que está sendo socialmente,
cordialmente, subliminarmente - humilhado. Nesses casos os verbos
ditos são no presente é claro.
Quanto brilho. Jorge agora quer um ovo. E foi pedi-lo. O senhor do
caixa disse que não era um ovo e sim um bilhete de passagem
sem destino.
- Quem coloca o destino é você mesmo, depende do que
você tem de história. É uma viagem - disse o homem
de cabelos totalmente brancos.
- Droga, sabia que eram drogas! E, - quero um - disse Jorge.
Um real. Apenas um real. Era o que custava o ovo bilhete que chamou
a atenção de Jorge. Ele ficou se perguntando primeiro,
e depois para o homem que o vendeu o que ia fazer com aquilo. Escutou
apenas que era para abrir, embaixo do chuveiro de água fria,
pela noite e com luz apagada. De preferência sozinho em casa.
Jorge riu e estava saindo quando o homem repetiu: sozinho hein! Jorge
jogou o objeto que era pesado e rígido no carro e foi para
casa. No outro dia seria segunda-feira, dia de trabalho no escritório
de consultoria em direito intelectual que trabalhava. Jorge resolveu
abrir o objeto naquela noite. Desde que tinha saído do restaurante
ficou com aquilo na cabeça. Imaginou que seriam algumas coisinhas
quentes, ou que reagissem com água, mas não questionou
e resolveu agir debaixo da água. Da torneira da cozinha. Até
parece que ele ia tomar banho com um ovo.
Abriu, e não tinha nada. O objeto era de rosca e quando ele
abriu - nada. Um real só. Jogou no lixo, se sentiu enganado
e foi dormir.
Uma formiga entrou no lixo, entrou no ovo. Era de noite, estava molhado
de água gelada. A formiga estava sozinha ali. O ovo piscou
e abriu um feixe de luz amarela fluorescente com pontas rosas e faíscas
azuis, a formiga e o ovo sumiram. Jorge não viu. Apareceu um
monte de folhas verdes e bonitas ao redor do lixo. Jorge não
viu também. A história dela deveria ser com isso, ou
seu instinto trabalhava para isso. Folhas verdes.
Jorge um dia voltou no restaurante e após almoçar com
sua mãe no dia das mães (queria impressionar) foi perguntar
para o homem de cabelos brancos o que era aquilo de verdade. Nem ele
sabia, ouviu, eram "passagens" que tinha recebido para vender
em consignação, e que nunca ninguém voltou para
receber. Pensou ser um amuleto com aquelas recomendações
estranhas. Jorge disse que tinha jogado no lixo.
- Eu sei - O homem disse. Jorge olhou e quase gritou: como?
- Eu sou uma formiga feliz. Amarela. Vá embora! Perdeu!
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