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Marlene
Edir Severino de Castro
Itajaí
/ SC
Sapatos
Levantou-se de um salto ao toque do despertador. Tateou ainda no escuro
a roupa que separara antes de dormir. Vestiu-se, calçou os
sapatos sem olhar. Mirou-se no espelho do banheiro à"la
media luz", enquanto se arrumava mecanicamente.
Engoliu o café as pressas, repetido movimento de todas as manhãs.
Comeu um pedaço de pão sem sentir o sabor e correu,
bolsa no ombro, para não perder o ônibus que se insinuava
ao longe, na curva da rua.
Pessoas se acotovelavam para conseguir um assento. O ônibus
arrastava-se sem pressa, parando ao sinal das pessoas, que a exemplo
dela seguiam para o trabalho. Da janela fechada, perdeu-se em devaneios
observando um cachorro que revirava o lixo. Magro, suas costelas salientavam-se
sob a pele sem viço. Abocanhou um osso retirado em meio a cascas
de frutas e outros detritos. Um outro cachorro, tão magro quanto
ele, aproximou-se com olhos famintos.
O ônibus seguiu seu curso pelas ruas esburacadas, deixando os
cães abandonados ao seu destino.
...
Ainda sonolenta iniciou as atividades escolares do dia.
Demorou a perceber um burburinho insistente, que fizera aumentar o
tom de sua voz. Não compreendia o motivo, mas havia uma inquietação
generalizada que desconcentrava toda a classe. Observou uma menina
da segunda fileira de carteiras olhando para seus pés enquanto
cutucava a colega ao lado para fazer o mesmo e ambas davam gargalhadas.
Mais à frente, viu que a maioria, desinteressada do assunto
da aula, também sentia mais interesse em olhar para os pés
da professora.
E foi o que acabou fazendo também.
Direcionou seu olhar para os seus pés para ver o que havia
de tão interessante neles, que provocava tanta agitação.
Mas antes de olhá-los sentiu uma mãozinha delicada em
seu braço:
"Tia, a senhora colocou os sapatos trocados..."
Nem acreditou no que via: cada pé calçava um sapato
diferente, um era marrom, o outro preto. E o que era pior - um salto
era tipo anabela, o outro, mais fino, apesar de ambos serem da mesma
altura.
Custou a crer que chegara a esse limite. Pressa, distração,
pouco gosto pelo trabalho, parca remuneração.
Motivos não faltavam para explicar. Longos vinte e tantos anos
repetindo a mesma rotina. Escassez de prazeres. Sonhos escassos também.
Um pouco de tudo pensou, enquanto caminhava cabisbaixa à parada
de coletivo mais próxima. Se fosse em outros tempos, talvez
até achasse engraçado. Mas agora, também seu
humor andava desfalcado.
Já no ônibus, de volta para casa e calçando chinelos
emprestados, olhava sem interesse pela janela o movimento das ruas,
a mesma paisagem. Repetida. Sem atrativo.
Outro cachorro, tentando resgatar ainda alguma migalha de alimento,
revirava o lixo, agora completamente derrubado na calçada.
Ficou a olhá-lo até que a distância lhe tirasse
a nitidez e desaparecesse em meio a poeira do trânsito.
Tudo certo. No seu devido lugar, concluía, enquanto se preparava
para descer.
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