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Letícia
Faria Conde
Bauru
/ SP
Dundum
Se ela fosse contar todas as coisas que lhe aconteceram seria como
uma narrativa eterna sobre todas as histórias já mal
contadas por outras pessoas.
Ela sabia que qualquer palavra que propagasse seria exatamente o que
ele gostaria de ouvir, porém aquelas que mais deveria dizer
não seriam aceitas em seu miúdo coração.
Olhou em volta, ficou ainda mais pasmada quando tomou nota de que
não havia mais ninguém a quem desviar o olhar, agora
era forçada a mirá-lo nas pupilas certeiras de quem
a mataria após os confessados perdões.
"Pecadora" ele gritaria, e em sua cabeça aquela idéia
era pesada o suficiente para fazê-la mentir a respeito de seu
passado. Guardava uma dundum, com toda certeza aquela cruz talhada
em sua ogiva faria também se dissipar a culpa que sentia.
"Tônio, minha história é triste demais."
"Mas que coisa, menina, já não disse que pode confiar
em mim, neste homem que tanto te ama."
"Tônio, você jamais irá me perdoar."
Aquela sentença estava lançada e ele se corroeu, agora
queria saber não só pela vontade, mas pela necessidade
de entender o que o faria perder a sanidade a ponto de não
amá-la mais.
"Vê esse buraco no chão?" ele fez um gesto
positivo com a cabeça sem muito esforço, como quem ainda
tem receio do que iria ouvir "Pois fui eu quem cavou.".
"Por que de tal trabalho?"
"Eu irei matar uma pessoa hoje, Tônio."
Naquele instante ele ficou pálido, sua boca tremia - e se fosse
ele? A imaginação já o preparava para o massacre,
sua amada o mataria.
"Você gosta desse lugar, Tônio?" Claro que seria
o jazigo dele, jamais poderia conceber tal idéia, porém
se fosse para morrer que fosse pelos braços de sua imortal.
"Gosto sim." respondeu numa morbidez de quem se deixa levar.
"Que bom. Me agrada que este lugar também te agrade."
"Quem irá matar? Quero dizer, não precisa me contar,
eu só fiquei curioso. Mas seja quem for, estarei do seu lado
até o final."
"Obrigada, meu amor. Não o decepcionarei. É alguém
que morto já está."
Ao chegar em casa, Antônio não evitava pensar: "Claro
que sou eu. Talvez ela também tenha reparado que não
estou mais tão vívido quanto antes. Ah, minha querida,
com certeza me avisou para que eu pudesse me preparar."
E assim, convencido de que morreria, foi tomar banho.
Girou as torneiras e entrou debaixo daquela água fria que lhe
fez arrepiar os poros. Nunca mais sentiria aquela sensação,
e como era boa! Logo as gotas tornaram-se mornas, quase quentes, e
pôde sentir os músculos relaxarem, quase em um gozoso
reflexo devido ao arrepiar.
Ao sair, enrolou-se em seu melhor roupão - branco feito neve,
quase como se o frio tomasse conta de seus instintos novamente - e
olhou-se bem no espelho. Claro que após um tempo passou a realmente
apreciar aquele ser que o olhava com a mesma intensidade de seus olhos
e admirado deixou a vestimenta cair-lhe aos pés. Ali, nu, reparou
em cada detalhe de seu próprio corpo, quase como uma estátua
posta à mostra naquele momento. Escovou os dentes, que tornaram-se
ainda mais reluzentes, sem notar que era inútil já que
não sorria mais.
Colocou o conjunto que vestiria sobre a cama e por um instante ficou
sem entender porque colocaria suas melhores roupas para morrer já
que terminariam cheias de sangue ou sujas de barro num buraco que
ninguém jamais descobriria. Vestiu-as mesmo assim.
As mãos agora suavam frio, seu estômago revirava e por
via de dúvidas guardou em seu bolso traseiro a arma com a dundum
que carregava para onde quer que fosse.
No caminho o frio que o atingia era tão intenso que seus poros
não mais arrepiavam, apenas se encolhiam em sinal de repúdio
à situação. Como ela poderia matar o homem que
tanto a ama? Como seria tão fria? Sem dar explicações,
sem falar, sem contar sobre si, sobre seu passado lúgubre...
Como me deixarei morrer nas mãos de alguém que nem sei
quem é? Afinal, ela é só mais uma, logo arrumo
outra. Sim, porque não ficarei preso para sempre, talvez por
um tempo, mas as lágrimas terão fim. Eu não posso
morrer, não devo!
E ao chegar no sepulcro já cavado e aberto como um único
olho estatelado, apaixonado pelo corpo que ali iria jazer, viu sua
amada com uma arma e um papel, um em cada mão.
"Tônio, não tenha medo, venha aqui, quero te contar
um segredo."
"Mi, quem você irá matar?"
"Eu sei que não irá doer, você também
sabe que não irá doer, não sabe? Não confia
em mim?"
"Confio, mas não penso que alguém deva morrer."
"Agora eu já te contei, você já sabe, Tônio,
é tarde demais!"
"Não, não é. Vamos conversar... Eu faço,
eu aceito. Mas me explique o porquê."
Lentamente ela levantou a arma, já com o gatilho puxado, na
direção dele. Chorando olhava para ele como quem pede
perdão pelo que faria.
Antônio, desesperado, saca sua arma e atira primeiro gritando:
"Eu não mereço morrer!!!"
O tiro foi certeiro, entrou bem na cabeça. Dundum provavelmente
virou pó dentro do crânio da pobre Milânea. Seu
corpo frágil caiu vagarosamente na cova, quase como se estivesse
já no lugar ideal para que não houvesse esforço.
Que menina atrevida e mimada, pensava, achando que seria fácil
assim me matar, pois que morra primeiro! Eu já imaginava que
fosse louca, afinal, não ter pais mexe com a mente de qualquer
um, mas matar... Atrevida! Deve ter sido uma prostituta assassina
antes de me conhecer. Pecadora!!!
E assim, já conformado com a morte e inconformado com o amor,
Antônio foi balbuciando mais alguns pensamentos enquanto empurrava
a terra para tampar o corpo. De súbito viu a borda do papel,
descendo para pegá-lo. Em letras itálicas bem postadas
lia-se: "Antônio, meu amor. Hoje matarei alguém
porque a alma dessa pessoa não mais vive, apenas hiberna no
peito de outra. É bom ver que a imortalidade é possível
de ser alcançada, por isso peço, não me odeies
por querer matar-me na tua frente, quero apenas que meu passado não
seja lembrado por ti e que meu presente jamais seja apagado de tua
memória. Amo-te! E sei que não mais precisarei matar
ninguém, já que não me matando, matarás
a mim.".
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