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Nena
Medeiros
Brasília
/ DF
Entre
o sonho e o pesadelo
O gato preto atravessou a pista à minha frente a passos lentos,
preguiçosos. Ao perceber minha presença, parou, arqueou
a coluna e me encarou, exibindo os olhos amarelos e cheios de rancor,
deu um miado zangado e correu, desaparecendo na escuridão.
Um arrepio percorreu-me o corpo, pensei em desistir.
Quando os sonhos começaram, acordava ofegante e suada, muitas
vezes, chorava, desesperada. Depois, à medida que eles foram
se repetindo, comecei a tomar notas dos detalhes, informações
que pudessem ajudar-me e entendê-los. Agora, eles se repetiam
diariamente. Bastava fechar os olhos e cochilar por alguns instantes
para que as imagens surgissem, como num filme, sempre iguais. Repassei
as anotações por vários dias antes de me decidir:
o nome das ruas, o número do ônibus que me levaria até
lá, o horário... Finalmente, a ânsia de voltar
a vê-lo foi mais forte do que o meu bom senso e ali estava eu,
quase chegando ao meu destino. Ainda não podia acreditar no
que estava fazendo, nunca estivera naquele lado da cidade, porém
minhas lembranças tinham uma correspondência absurda
com a realidade: os sons de meus passos rápidos na calçada
úmida da chuva de há pouco, seu eco quando passei em
frente ao beco, o gato preto, o hotel: o letreiro com duas letras
apagadas, a porta de ferro fundido pintada de branco acetinado, meio
descascada pela maresia, os vidros embaçados.
Ainda observava esses detalhes quando ouvi a gargalhada histérica.
O coração saltou-me no peito. Havia esquecido deste
som estridente que sempre me apavorava no sonho, essa risada de mulher
que vinha de algum dos quartos acima de mim e que mais parecia os
estertores da morte de uma bruxa. Mais uma vez, congelei. Senti mesmo
amolecerem-me as pernas. Podia ouvir minha pulsação,
podia sentir a fúria do sangue a percorrer-me as veias. Por
que não esquecê-lo, viver minha vida? Tudo estava tão
perfeitamente igual até aqui... não deveria me bastar?
Sorri. Sabia que não poderia jamais conviver com esta dúvida.
Por mais que as coisas estivessem se encaixando tão perfeitamente,
precisava vê-lo, só me convenceria com a mais absoluta
certeza.
Mais alguns passos e vi a casa. Bonita, luminosa, flores no quintal.
Sem grades. Aproximei-me. O estômago embrulhado, a cabeça
doendo. Mas, agora, faltava pouco. Sabia que bastaria caminhar ao
longo desta parede, passar por esta janela, por mais esta outra e
enfim, posicionar-me, para vê-lo lá dentro. Agarrei a
esquadria. Lembrei-me da vertigem que sentiria ao vislumbrar seu rosto,
não queria estragar tudo, como nas primeiras vezes. Sim. Embora
o sonho se repetisse sempre, eu era capaz de mudar algumas coisas,
se agisse de forma diferente. No início, quando eu o via, desmaiava.
Então, nas vezes seguintes, aprendi a segurar-me firmemente
na janela, para poder vê-lo por mais tempo. E, se já
tinha chegado até aqui, não ia mesmo cometer nenhum
erro estúpido que me impedisse de aproveitar todos os segundos.
Não demorou muito e ele entrou. Lindo! Bem vestido, penteado...
Trazia um enorme sorriso nos lábios. Seu olhar expressava a
mais doce e plena felicidade. Senti a vertigem. Apertei mais os dedos
contra o ferro, respirei fundo... Aos poucos, recuperei o controle.
Olhei novamente. Ele vinha de mãos dadas com ela. Ela, que
o roubara de mim, que quase me deixara louca, ao desaparecer com ele
de minha vida, sem deixar vestígios. Os dois sentaram-se no
sofá suntuoso. Ela lhe alcançou um pacote dourado. Ele
estava radiante, abraçou-a com força, como costumava
me abraçar, beijou-a. Senti ciúmes, inveja, raiva. Queria
entrar, matá-la, tomá-lo de volta... Ele rasgou o embrulho,
de onde tirou um carrinho desses com controle remoto que eu via nas
propagandas da TV, mas que jamais poderia comprar para ele. Então,
eles sentaram-se no tapete fofo e ficaram brincando. Finalmente, a
confirmação. Por mais que os sonhos me dissessem isso,
por mais que repetidas vezes eu os tenha assistido, precisava mesmo
ver com meus olhos. Ver que ele estava bem, que ele era amado, que
teria uma vida infinitamente melhor do que a que eu poderia lhe dar.
Ver que, nesses últimos dois anos em que eu jamais deixei de
pensar nele, ele parecia ter-me esquecido completamente. Não
se admira. Era apenas um bebê e eu estava longe de ser uma mãe
exemplar. Sozinha, usuária de drogas, por mais que o amasse,
por mais que desejasse melhorar por ele, o vício era mais forte
e, eu acabava por descontar nele meu desespero e frustração.
Já não conseguia mais disfarçar-lhe os hematomas.
Lembrei do dia em que eles o levaram, da violência, da forma
como ela o arrancou de meus braços enquanto o marido segurava
meus cabelos e o pescoço, até jogar-me no chão
como um trapo, do quanto eu quis levantar-me e tomá-lo de volta,
mas apenas fiquei lá, encolhida, chorando, imobilizada pela
quase overdose que havia tomado mais cedo. Olhei para ela. Tão
serena, tão amorosa... Sabia que eles eram boas pessoas, ansiosos
por ter um bebê como o meu, um bebê que eu acabaria por
matar, numa crise de abstinência ou num transe.
Aliviada, certa de que seu destino agora seria muito melhor do que
o que lhe esperava ao meu lado, soltei-me da janela e caminhei de
volta para a rua.
O sonho estava perto de acabar. Este final eu tentei evitar de todas
as formas e nunca consegui. Somente por causa dele demorei tanto a
vir. Ouvi os passos dele, do homem que o tomou de mim. Senti seu pânico,
o medo de que eu o fosse exigir de volta. Sabia que não adiantaria
tentar dizer-lhe nada, mas disse assim mesmo:
- Apenas o faça feliz.
Não sei se ele ouviu, o barulho do tiro abafando minha voz.
Num último gesto de nobreza, ainda consegui retirar a faca
do bolso. Queria ter certeza de que a polícia me encontraria
drogada, armada e perigosa. Que ele não seria condenado pelo
tiro que me esmagou os miolos. Qualquer rábula iria livrá-lo
das grades sob o argumento de legítima defesa.
Meu filho teria uma família e seria feliz como eu nunca fui.
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