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Maria
Helena Camilo
Lagamar
/ MG
O
sonho de Elisa
A tarde parecia não querer ir embora. O sol descia preguiçoso,
cumpria a determinação das horas. Preguiçoso
também, batia o antigo relógio de madeira do salão.
Elisa, debruçada no parapeito da varanda, com os olhos e o
pensamento longe, aparentava tão preguiçosa quanto o
relógio e a tarde. Gostava de debruçar-se na varanda
depois da lida da casa, mas aquele dia era diferente. Seus olhos,
ora se estendiam planície afora acompanhando o gado que subia
a encosta, ora deleitavam-se no céu. Um céu de intenso
anil que ganhava cor e movimento com o revoar dos pássaros
ao despedirem-se do dia, ocupando os ninhos nos galhos das gameleiras
que ladeavam a entrada da fazenda. Lá longe, a estrada sumia
à vista dos olhos de Elisa. Ela suspirava... já antecipando
a saudade que sentiria daquele lugar encantado, testemunha de sua
vida desde seu nascimento. Estava se despedindo de tudo ali.
Elisa não era criada da Fazenda. Era uma espécie de
filha adotiva. A mãe, Maria Conceição dos Anjos,
empregada de Dona Soledade, "Dona Dade", como era conhecida,
e do Senhor Adalberto Sant'Ana, grande criador de gado instalado na
região por volta dos anos 70. Maria Conceição,
carinhosamente alcunhada pela família por "Ceição",
havia acompanhado o casal de fazendeiros desde o casamento e a mudança
do Paraná para a Fazenda Rio Jordão, no município
de Uberaba, interior de Minas Gerais.
Ceição, nunca se casou. Depois de moça de idade,
apaixonou-se por um peão que apareceu na fazenda, Lindoval,
rapaz trambiqueiro, paraibano, cheio das manhas do mundo e nada queria
com Ceição, a não ser dormir no seu quarto às
escondidas de Dona Dade. Era do mundo e lá se foi para o mundo
logo que soube da barriga de Ceição.
O patrão, homem austero, sistemático, como dizia os
peões, pensou besteira. Chegou marcar reunião com a
peonada para tramar emboscada e acabar com Lindoval. Mas Ceição
pediu pelo amor de Deus e de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro,
Santa da devoção da patroa, que nada fizessem com Lindoval
não, que fosse ele quem fosse, era o pai do "fio"
dela.
Nasceu a rejeitada! Nessa ocasião, os filhos do Senhor Adalberto,
cinco machos seguidos, por insistência de Dona Dade, que repetia
a cada gravidez: "dessa vez, será uma menina, a minha
Elisa". Cinco barrigadas sem nascer nenhuma menina. Ao nascer
o quinto, Adalberto ordenou ao Dr. Vitório, médico da
família, uma laqueadura. Dona Dade, só viera saber,
depois que os filhos já estavam todos nas cartilhas.
Não existia melhor ocasião para nascer a rejeitada.
Dona Dade, fez as honras da casa para Ceição que durante
o resguardo trocou de papel com a patroa. Dona Dade, fez questão
de fazer os ensopados de galinha gorda, escolhida a dedo no terreiro
para a ocasião, assim como havia sido os cuidados recebidos
de Ceição, quando dos cinco partos que tivera. Em troca
de tão calorosa manifestação de amizade, Ceição
disse dar a filha para Dona Dade batizar e que lhe desse o nome que
tanto queria dar a filha que não teve: Elisa.
Depois do resguardo, Ceição retornou ao seu posto de
criada, mas Elisa cresceu com certas regalias na casa grande. Algum
desconhecido ao visitar a fazenda, não fazia nenhuma distinção
entre a garotinha, sempre mimada no colo de dona Dade e os outros
meninos que ali estavam a brincar. Achavam todos serem irmãos.
Aos sete anos de Elisa, morreu Ceição, vítima
de uma epidemia de febre desconhecida que assolou a região.
Desde então, ficou de vez a pequena Eliza sob os cuidados dos
padrinhos. Cresceu na fazenda, viu os filhos de Dona Dade crescer
e ir embora um a um assim que a idade chegava para ir estudar na cidade
grande em escola boa para lhes ensinar profissão. Senhor Adalberto,
dizia: "Filho meu, tem ser doutor! Estudar o que o pai não
pode estudar". Foram-se todos! Na casa grande, lentamente, só
os padrinhos e Elisa.
Os anos passaram. Os filhos se formaram. Alguns deles se casaram e
moravam longe. Suas vindas à fazenda eram cada vez mais escassas.
Elisa também havia crescido. Estudou no colégio da vila,
mas desejava ardentemente seguir seus estudos. Sonhava ser médica,
assim como o Doutor Álvaro, o filho mais velho do padrinho.
Ele, só vinha à fazenda muito raramente e suas visitas
eram sempre rápidas devido à profissão. Porém,
não tão rápidas que não desse tempo de
arrancar olhares e suspiros de Elisa.
Numa de suas visitas, enquanto tomavam café na grande sala
do piano, Álvaro comentou com a mãe:
- Nossa mamãe! Como a Elisa Cresceu! E como ficou bonita!
Elisa corou intensamente. Suas mãos tremeram ao servir o café.
Álvaro jamais imaginara que, seu corpo atlético e seus
olhos de amêndoas há muito deixaram de serem visto por
Elisa apenas como os de um irmão.
Elisa tornara-se moça feita. Sua formosura era notável.
O padrinho vivia incomodado de se repetir com a afilhada a mesma desdita
da mãe. Estava sempre pronto para despedir algum peão
mais abusado, se por ventura sonhasse falar alguma gracinha para a
moça.
Dona Dade intercedia pela afilhada, para que Adalberto a deixasse
seguir seus estudos assim como fizera com os filhos. O padrinho tinha
cisma! Dizia que na cidade grande o perigo era eminente e depois,
não queria ver a afilhada mal falada, planejava vê-la
casada, e muito bem casada.
Mas desta vez, Álvaro, estava em visita aos pais. E tomou partido
de Elisa. Já exercendo a profissão e percebendo o interesse
da moça em seguir carreira, não se absteve e entrou
no assunto.
- Ah, papai, isto não existe mais! Veja, no tempo em que fui
para a faculdade já havia uma porção de moças
deixando as famílias para estudarem. E há também
casas de família ou pensões somente para hospedar moças.
A filha do Senhor Balduino, nosso vizinho, esta lá e já
esta se formando. Não vejo razão de Elisa não
poder estudar! Acho que já é hora dela decidir, e se
quiser fazer medicina, eu darei o maior apoio.
O pai titubeou, resmungou... Mas não teve escolha. A posição
do filho doutor era muito convincente e a madrinha confirmava. Não
houve mais jeito, Elisa iria estudar na cidade grande. Na segunda-feira,
seguiram todos para Uberaba para cuidar das acomodações.
Depois de tudo arranjado, voltaram à fazenda para buscar os
apetrechos da moça. Os padrinhos de Elisa haviam aprovado onde
ela iria morar.
Elisa estava muito feliz! Medicina era o seu grande sonho, mas não
era o único, existiam muitos outros que pressentia pertos de
se realizarem.
Naquela noite, assim que os padrinhos se recolheram, os olhares de
Álvaro e Elisa se cruzaram. Elisa saiu para a varanda. Imersa
em seus devaneios, não percebeu a presença de Álvaro
quase a tocar-lhe os cabelos. Sentiu o chão fugir sob seus
pés e procurou se controlar. O toque das mãos de Álvaro
na sua cintura a fez estremecer.
-Elisa! Você gosta muito daqui não é mesmo?
-Eu amo tudo aqui, vou sentir muita saudade da fazenda.
- Prometo fazer tudo para que você não fique triste.
-Obrigada, Álvaro, se não fosse por você, creio
que o padrinho nunca me deixaria estudar.
Álvaro segurou suas mãos. Elisa enrubesceu-se. Álvaro
exercia o incrível poder de torná-la ainda mais frágil.
Temia olhar os seus olhos e declarar o imenso desejo de amá-lo.
Álvaro tocou-lhe delicadamente o queixo e levantou seu rosto.
Eliaa não teve forças para desviar. Os olhos de ambos
diziam uma linda declaração de amor. Álvaro a
abraçou com ternura, roçando os lábios quentes
no seu rosto, sussurrando palavras carinhosas.
O beijo aconteceu... Cálido... Meigo... Sequioso.
O destino abria-se à sua frente num sorriso maroto...
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