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Marco
Hruschka
Maringá
/ PR
Bem-me-quer-mal-me-quer
Não estava conseguindo dormir. Tivera sonhos agitados. As imagens
eram dispersas e rápidas, flashs ligeiros, embaralhados, várias
cenas ao mesmo tempo. Rolara na cama desde a hora em que se deitou,
virava de um lado para outro, trocava de travesseiros, trocava de
sonhos iguais. Suava. O ventilador estava ligado, mas lá fora
fazia primavera. De fato, há coisas que fazemos somente pelo
hábito. Era herança do verão, pois. Chovia. O
barulho da chuva o incomodava. Todo ruído que não fosse
o de seus pensamentos o incomodavam. Com o alvoroço dentro
de si ele já se acostumara. A lua já não aparecia
nos céus, estava escondida entre nuvens negras e pensamentos
longínquos.
Sentiu o estômago torcido, achou que estava passando mal. Resolveu
levantar-se. Meio zonzo, com a cara contrariada, saiu do quarto sem
acender nenhuma luz, guiando-se pela experiência adquirida em
noites em claro. Foi direto à cozinha, pois era lá que
guardava sua caixa de medicamentos. Esbarrou na mesa, não era
comum. Então acendeu as luzes. Tomou remédio para dores
de cabeça. Em seu inconsciente, achava que eliminaria o turbilhão
de imagens desconexas que insistiam em lhe perturbar. Em seguida,
sal de frutas. Alívio parcial. Foi até o banheiro. Olhou-se
no espelho do armário. Abriu bem os olhos verificando se encontrava
alguma anomalia. Em seguida, a boca e a língua. Depois ergueu
a cabeça para observar as narinas. Não havia nada de
errado com seu rosto, mas sentiu vontade de usar cotonetes nos ouvidos.
Achou que poderia tocar seus pensamentos com o objeto. Os cotonetes
seriam a ponte entre si e seus segredos, o milagre, a epifania, o
mapa do tesouro, a descoberta. Enfiou o mais fundo que pôde.
Ambicionava ser-se um só, corpo e mente, para poder controlar-se.
No entanto percebeu que não podia, estava além de seu
alcance, de seu poder. Conteve-se no limite e outro alívio
tomou-lhe a alma, uma sensação de leveza. Entretanto,
ele não sabia, mas as imagens continuavam lá.
Voltou à cozinha, abriu a geladeira e ficou imaginando o que
realmente ansiava. Seria fome? Sede? Desejo? Esperança, talvez?
Tudo! Misturado e conturbado como também era a sua vida. Ele
pensava demais, mesmo quando não queria. Sentia demasiado também,
mas isso era por opção. Num reflexo instintivo, apossou-se
do litro de leite e sorveu-o todo. Ao fim, sorriu sem perceber, de
um sorriso ligeiro e sincero.
Andou pela casa sem saber o que estava fazendo até que viu
a porta de vidro da sala, que dava para a sacada. Vou tomar um ar,
pensou. Saiu. A brisa primaveril percorreu-lhe o corpo, arrepiando-lhe.
Sentiu calafrios. O mais provável seria aconselhar-lhe um agasalho
mais grosso, não se pode abusar da saúde. Mas não
era o caso. Era um sinal. Um pressentimento, talvez.
Olhou para o céu e agora podia ver a lua, toda branca. Beberia
essa lua, associou. Mas não podia porque já estava cheio,
repleto de si mesmo. Ficou ali por alguns minutos, refletindo e aguardando
uma estrela cadente, Pediria uma noite de sono, falou em voz baixa.
Eles não vieram, nem a estrela e nem o sono. Haverá
ainda noites de insônia ou de vigília, como esta que
aqui acompanhamos. Mas o jovem não descobrirá o motivo
que não o deixa dormir. Velará ainda por sete dias,
tempo que durará o seu transtorno, a deusa dos seus sonhos,
a dúvida de além, o bem-me-quer-mal-me-quer que lhe
aflige.
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