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Antologia
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Testemunho
Numa casa modesta, na rua paralela à do centro, agonizava a diretora do Grupo Escolar da cidade, que ensinou as primeiras letras a uma geração de alunos. Pairava uma consternação geral na população com a perspectiva de sua morte. Após sete dias, o médico, o único médico do posto de saúde, seu ex-aluno, auscultando por dois dias o coração, deu-a como morta. Naquela época, era a parada de batidas do coração e não o cérebro que indicava o falecimento. Afirmavam que, quando o coração para de bater e o fluxo sanguíneo é interrompido, as células deixam de receber oxigênio e morrem em poucos minutos, acelerando velozmente a decomposição. Na sala que tinha acesso ao quarto, pessoas amigas sentadas em toscos bancos de madeira rezavam em silêncio e já se sentia um bolor horrível. No quarto, deitada numa esteira no chão, enrolada em folhas de bananeira para aliviar a febre, a professora estava estendida, imóvel, sem comer e sem beber. O médico aconselhou meu pai a providenciar os preparativos para o enterro, e o caixão funerário foi confeccionado. Uma
das professoras, Dona Libania, juntamente com os demais conhecidos,
empilharam tijolos no canto da sala, formando duas colunas, por cima
das quais colocaram uma taboa de caixão de armazém e
cobriram-no com linda toalha branca rendada, improvisando um altar.
Nele, colocaram a imagem de Nossa Senhora das Graças, com 50
centímetros de altura. A imagem, embora a janela tivesse sido
fechada, mas, pela claridade que entrava pela porta e pelo bruxulear
das velas, era vista toda de azul, com um brilhante manto. Os braços
um pouco afastados do corpo ostentavam mãos espalmadas, irradiando
reflexos luminosos como graças concedidas. Em cima de um globo
como pedestal, com o pé esmagava uma enorme serpente que levantava
a cabeça e punha a língua de fora. As feições
eram extasiantes, faiscando na parte da cabeça que o gorro
branco do xale por baixo do manto azul cobria. Nisto,
o enorme relógio na praça principal da cidade dava seis
badaladas, confirmando 6 horas, hora do ângelus. Já se
rezara a última Ave Maria e começava a louvação
"No céu, no céu, com minha mãe estarei,
na glória de um dia, junto à Virgem Maria, no céu,
no céu, com minha mãe estarei", quando se ouviu
um gemido que arrepiou todos. Minha mãe acordou e moveu os
lábios. Com um pano molhado, espremido, destilaram pausadamente
gotas d'água nos lábios ressecados que se mexiam, absorvendo-as.
Aos poucos abriu os olhos. Começou a melhorar, ficando completamente
boa, sem nenhuma sequeela e sem tomar nenhum remédio. Viveu
durante 85 anos, com saúde de ferro. |
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Contos
"Além da Imaginação"- Março
/ 2010 |