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Edilson Landim
Guarapari / ES

 

Testemunho


Como um cenário, com todos os seus personagens, montado em minha memória é que evoco o acontecido.
Corria o ano de 1938. Mês de outubro. Completara 10 anos de idade. Uma cidade pequena do interior do Ceará, chamada Russas, estava tendo parte de sua população dizimada por uma peste a que davam o nome de tifo ou paratifo. As procissões caminhavam o dia todo pelo centro da cidade, carregando para o cemitério os mortos em redes puxadas por duas pessoas, uma na frente do defunto com um pedaço de madeira enviada no punho e nas costas como canga de boi, e outra atrás da mesma maneira.
Caixões funerários eram poucos e os que se ofereciam à venda custavam caros.

Numa casa modesta, na rua paralela à do centro, agonizava a diretora do Grupo Escolar da cidade, que ensinou as primeiras letras a uma geração de alunos. Pairava uma consternação geral na população com a perspectiva de sua morte. Após sete dias, o médico, o único médico do posto de saúde, seu ex-aluno, auscultando por dois dias o coração, deu-a como morta. Naquela época, era a parada de batidas do coração e não o cérebro que indicava o falecimento. Afirmavam que, quando o coração para de bater e o fluxo sanguíneo é interrompido, as células deixam de receber oxigênio e morrem em poucos minutos, acelerando velozmente a decomposição.

Na sala que tinha acesso ao quarto, pessoas amigas sentadas em toscos bancos de madeira rezavam em silêncio e já se sentia um bolor horrível. No quarto, deitada numa esteira no chão, enrolada em folhas de bananeira para aliviar a febre, a professora estava estendida, imóvel, sem comer e sem beber. O médico aconselhou meu pai a providenciar os preparativos para o enterro, e o caixão funerário foi confeccionado.

Uma das professoras, Dona Libania, juntamente com os demais conhecidos, empilharam tijolos no canto da sala, formando duas colunas, por cima das quais colocaram uma taboa de caixão de armazém e cobriram-no com linda toalha branca rendada, improvisando um altar. Nele, colocaram a imagem de Nossa Senhora das Graças, com 50 centímetros de altura. A imagem, embora a janela tivesse sido fechada, mas, pela claridade que entrava pela porta e pelo bruxulear das velas, era vista toda de azul, com um brilhante manto. Os braços um pouco afastados do corpo ostentavam mãos espalmadas, irradiando reflexos luminosos como graças concedidas. Em cima de um globo como pedestal, com o pé esmagava uma enorme serpente que levantava a cabeça e punha a língua de fora. As feições eram extasiantes, faiscando na parte da cabeça que o gorro branco do xale por baixo do manto azul cobria.

Dona Libania convidou os presentes a rezarem o terço e instou que só desistissem quando não houvesse mais esperança. Um bafio que saía pela porta do quarto estava deixando o ambiente insuportável, misturado com a fragrância das flores que enfeitavam o altar. O mais estranho é que o corpo não entrara em decomposição.

No dia seguinte, bem cedo veio o médico com um enfermeiro, examinou o corpo, procurou sentir alguma batida do coração ou qualquer outro sinal de vida. E deixou transparecer para o enfermeiro que estava muito cismado porque o corpo depois de tanto tempo não estava esverdeado e a pele se conservava perfeita. Saía desesperançado.

Meu pai se aproximou para saber alguma coisa e o médico fez um sinal significando que esperasse mais um pouco pelo laudo médico.

Na sala o caixão à vista de todos, em pé, encostado a um canto da parede, transmitia uma visão lúgubre da morte. Eu estava anestesiado pelo sono, com muito cansaço, desesperado, atordoado, olhos famintos de lágrimas, mas com muita fé.

Foi no terceiro dia. Recordo bem daquela tarde, quase no pôr do sol. O médico chamado pela enfermeira entra às pressas no quarto e faz vir depois meu pai. Esclarece nervoso que, embora os cabelos estivessem perfeitos, as unhas estavam soltando-se. Ouvi palavras sobre decomposição rápida do corpo. Saiu apressado como entrou e o caixão foi levado para dentro do quarto.

Na cozinha, havia um movimento agitado de mulheres fervendo água com ervas cujo cheiro se espalhava por toda a casa e, rapidamente, levavam os baldes para lavar o corpo no quarto, que foi fechado. Quando pude ver, o corpo estava com um vestido branco que nunca vira, lindo como de primeira comunhão, um rosário em volta do pescoço e ao lado o caixão.

Na sala repleta de gente se cochichava que o enterro seria amanhã, às 10 horas, e que o caixão seria trazido com o corpo para ser velado na sala.

Nisto, o enorme relógio na praça principal da cidade dava seis badaladas, confirmando 6 horas, hora do ângelus. Já se rezara a última Ave Maria e começava a louvação "No céu, no céu, com minha mãe estarei, na glória de um dia, junto à Virgem Maria, no céu, no céu, com minha mãe estarei", quando se ouviu um gemido que arrepiou todos. Minha mãe acordou e moveu os lábios. Com um pano molhado, espremido, destilaram pausadamente gotas d'água nos lábios ressecados que se mexiam, absorvendo-as. Aos poucos abriu os olhos. Começou a melhorar, ficando completamente boa, sem nenhuma sequeela e sem tomar nenhum remédio. Viveu durante 85 anos, com saúde de ferro.

Poucas pessoas, que assistiram aos fatos, poucas mesmo, não se contam nos dedos das mãos, ainda vivem, mas eu fiquei para dar meu testemunho.

Milagre, só os que creem podem afirmar, letargia, adipocera ou saponificação, porque o corpo não se decompôs, podem blasonar os céticos e especular os cientistas.

O certo é que"EXISTEM MAIS MISTÉRIOS NO CÉU E NA TERRA QUE SUPÕE NOSSA VÃ FILOSOFIA", como dizia, há mais de 400 anos, o famoso bardo que todos conhecem pelo nome de William Shakespeare.

 
Contos "Além da Imaginação"- Março / 2010