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Sergio Tavares
Rio de Janeiro / RJ

 

Promessa de amor


Ele já estava há alguns minutos parado, olhando para o que sobrou do antigo porto de onde um dia seu navio partira para sua última viagem quando ainda era marinheiro. Olhou para alguns cabeços e espias que sobraram dispersas pelo cais e teve a sensação de ouvir uma garrafa de champanhe se quebrando, gritos e palmas, enquanto seu pensamento viajava pelo passado.
Ao longe pode perceber velhas âncoras enferrujadas, presas ainda pelas correntes que um dia sustentaram-nas no fundo dos mares. E a saudade de Dimitrov era como uma âncora que sentia falta, nesse momento, de uma parte de si, talvez sua maior razão de ser... uma parte do seu coração. Sentia-se como um navio que um dia partiu, deixando sua âncora para trás... E talvez por isso tenha naufragado em algum arrecife de corais.
Andando pelas ruas ele percebeu trilhos de ferro, por onde um dia deslizaram guindastes, restos de sucatas, chaminés sem fumaça, barcos abandonados com os cascos ainda repletos de mexilhões secos... moradias sem vida aparente.
Agora, pelo caminho encontrava antigos tratores, engrenagens corroídas pelo tempo, paredes úmidas e repletas de rachaduras, entre as teias da sensação de abandono diante do dique seco, como uma sepultura abandonada do velho arsenal.
Ele caminhou sob as pedras pontiagudas da antiga estrada construída por operários, talvez ainda escravos, e poderia jurar ouvir vozes ecoando e gritando seu nome, entre as gotas de sangue ressequidas e incrustadas nos poros do chão, e em dado momento sorriu ao perceber que não sabia como fora parar ali dentro do velho porto... quase abandonado, sua memória já não era mais a mesma... talvez o destino o tenha encaminhado até ali novamente.
Nesse dia em especial, o velho Dimitrov sentiu-se renovado ao retornar quase por encanto ao antigo cais. Mas algo diferente o angustiava... Dimitrov estava com oitenta e cinco anos de idade e suas pernas já não aguentavam tamanho sacrifício.
Uma fina chuva de verão caia sobre seu corpo esquálido, enquanto procurava inutilmente uma marquise para se proteger. As visões e a distância não o ajudavam e cambaleante caiu.
Já no chão, sentiu que um braço o agarrou ajudando-o a levantar-se, ele viu apenas um vulto a sua frente... mas não conseguiu identificá-lo.
- Estou bem. Desculpe, mas eu comecei a caminhar e acho que me perdi e me afastei da entrada... Como faço para retornar? - perguntou Dimitrov.
Na verdade, ele não queria retornar, pois sentia uma força que o encaminhava como se o levasse em frente... ao encontro do passado. Passou a mão sobre o semblante para secar uma mistura de chuva, suor e lágrimas que escorriam sobre seus olhos.
Ouviu soar ao longe um apito de um navio... Antigas recordações começaram a emergir de suas lembranças adormecidas...
Pensou ver sua amada Maria... lhe acenando do porto... Sentiu-se tomado pela intensa saudade de seu grande amor, como a velha âncora separada um dia de seu navio e entregue à agonia do tempo e da solidão do cais.
Ele agora sabia o motivo de ter retornado quase sem querer ao local de onde partira há mais de vinte anos... Fora movido pelo amor que nunca calou dentro de seu coração... estava cumprindo uma promessa... de um dia retornar para reencontrá-la...
- Minha amada Maria! - balbuciou enquanto esfregava os olhos tentando ter certeza do que imaginava ver.
Dimitrov, agora, sentia necessidade de gritar e explodir seu coração em meio à imensidão dos pensamentos. E quem o observasse, não poderia jamais imaginar o tamanho da felicidade que invadiu seu peito ao correr cambaleante para abraçar o grande amor da sua vida... E depois de permanecerem abraçados por algum tempo...
Maria estendeu-lhe os braços mais uma vez e amparou Dimitrov que não sentia mais as dores latentes de suas pernas.
- Meu amor, você não imagina como eu queria reencontrá-la. Depois que parti naquele navio, percebi com a distância que nos separou... o imenso amor que sentia por você. Mas em meus sonhos você sempre esteve presente... Eu te amo! - disse Dimitrov.
- Amor... chorei muito com a sua partida, mas depois de um tempo, que já não me lembro quanto, passei a acompanhá-lo todos os dias. Eu sempre estive ao seu lado aguardando, por este dia em que ficaríamos juntos para sempre... Eu também te amo! - sussurrou Maria.
E de mãos dadas saíram caminhando pelo cais até sumirem no horizonte azul do mar, sorridentes, envolvidos por uma aura de imenso amor.
O corpo de Dimitrov permaneceu por toda a noite abraçado à velha âncora - até ser encontrado no dia seguinte - sob uma chuva de lágrimas ferruginosas.
Naquele momento, se cumpriu uma antiga promessa de amor tendo apenas o céu por testemunha.

 
Contos "Além da Imaginação"- Março / 2010