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Marina
Moreno Leite Gentile
Salvador
/ BA
A
vida não acaba com a separação
Meu marido tomava o café sempre apressado. O silêncio
era constante. Fora de casa ele era uma pessoa alegre, simpática,
mas em casa era bem diferente. Para evitar atrito, não trocava
palavra alguma com ele de manhã. Ele partia para o trabalho
com um simples tchau . Eu seguia até a janela para observá-lo,
até perdê-lo de vista.
Sempre estava nervoso, ao questioná-lo alegava que a empresa
se encontrava em dificuldade, que tinha muitos problemas a resolver
etc... Eu acreditava em seus argumentos, tinha medo de falar, de reclamar.
Esta foi a nossa vida por uns tempos.
Em uma determinada época seu comportamento começou a
mudar. Estava mais alegre, disposto. Inicialmente apreciei a nova
fase da vida dele, mais vaidoso, comprando perfume, roupas modernas,
retomou o esporte preferido (tênis) etc.
Muitas reuniões estavam ocorrendo na empresa. Qual seria o
motivo? Passaram a exigir visitas em uma unidade fora do estado, suas
viagens eram frequentes por dois ou três dias. O que eu poderia
fazer?
Apesar da mudança ocorrida com ele, permanecia o mesmo comigo.
A falta de dedicação em casa me incomodava ao extremo.
No retorno de uma das viagens a Fortaleza em 1990 eu fingi que nada
acontecia, tomei a iniciativa de fazer-lhe carinhos, massagem nos
pés. O meu desejo estava contido, estava realmente com saudades
de meu marido, eu o amava. Ele assemelhava-se a uma estátua,
alegou cansaço. Fui insistente, amarguei uma cena triste, patética:
suas mãos me empurraram levemente, induzindo que eu me afastasse.
A seguinte frase foi dita com bom tom:
- Precisamos conversar!
Ficamos em silêncio por uns instantes, ele tossiu, gaguejou
e prosseguiu a falar:
- Você é uma ótima mãe, uma excelente pessoa,
possui inúmeras qualidades, gosto muito de você, mas...
E foi falando, falando... Mantive-me em silêncio, as lágrimas
falavam por mim, chorei amargamente, não dormi naquela noite.
O mundo ruiu em meu ser, me senti culpada por não controlar
a situação, por não ser amada, minha estima por
mim mesma ficou mais abalada do que já era.
No dia seguinte ele partiu definitivamente. Eu tinha apenas 33 anos
de idade, fora do mercado de trabalho, três crianças
menores de idade, totalmente insegura, com medo do mundo.
Eu e meus três filhos passamos a viver sozinhos, nossos parentes
viviam em outro estado, a vida financeira ficou delicada a partir
de então. Suportei situações difíceis,
inclusive de preconceito. Mulher separada sempre tem este problema.
Meu primogênito tinha apenas oito anos de idade, chorou muito
após a partida do pai. Foi o choro mais triste que presenciei
na minha vida, estava desesperado, soluçava. Ele entendia muito
bem o significado da partida, tive que adquirir forças para
confortá-lo.
O outro filho com sete anos e nome de anjo, permanecia estático,
chupando o dedo. Olhava muitas vezes para o infinito, sempre calado.
Nesta época ele ficou com gagueira.
O filho de apenas três anos andava pelo apartamento, de um lugar
a outro chamando pelo pai:
- Painho, painho....
Eu sentia minhas forças se esvaindo, imaginei que não
conseguiria sobreviver com a separação. Tive medo do
futuro de meus filhos. O desespero foi tão profundo, perdi
o equilíbrio, a noção do tempo. Em apenas um
mês estive próxima de ser atropelada por duas vezes.
Senti vontade de morrer, mas Deus e meus filhos foram determinantes
em minha vida.
Todos os dias me ajoelhava e orava para Deus conceder-me forcas para
superar aquele momento, agradecia sempre por mais um dia de vitória.
Graças a Deus nunca faltou o básico a meus filhos, felizmente
consegui pagar o apartamento, apesar dos atrasos constantes.
.Agora os três são adultos, corresponderam muito bem
a minha dedicação para com eles, sou uma mãe
verdadeiramente realizada, feliz. Posso afirmar: Filhos bem criados,
trabalho encerrado !
Quero dedicar esta história e esta vitória com as pessoas
que viveram, vivem ou viverão o mesmo que eu. Não me
refiro apenas as mulheres, porque existem casos em que homens tomam
a dianteira nesta missão.
A vida não acaba com a separação, especialmente
se amamos nossos filhos e temos coragem para enfrentar o desafio.
A vida continua !
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