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Juarez
Francisco da Costa
S.
J. Vale do Rio Preto / RJ
Contar
ou (des)contar o conto
Hoje, distraidamente olhando minha garotinha, ocorreram-me lances
do passado, rotulei o presente e fiz perquirições acerca
do futuro. Com menos de dois anos de idade, não se adapta ao
gorro que sua mãe lhe põe para protegê-la da friagem
ou para enfeitar. Tira-o quantas vezes lhe é colocado. Lembro
que daqui mais um tempo lhe contarei estórias. E eu mesmo viajo
nas que me contavam. Serei fiel no que contar? Subtrairei trechos
ou tudo de velho, criando o novo? Acrescentarei ao antigo? Interpretarei?
("Quem conta um conto aumenta um ponto"). O momento de mim,
o costume ou algum fator latente ditará a fórmula.
Seu gorro, quando ela sai das vistas, fica perdido, e logo alguém
terá que procurar. Sempre se acha. Nem sempre de modo fácil.
Assim como sua chupeta, de que ela gosta, mas não usa o tempo
todo e sempre deixa por aí.
Assim como fazem com ela, também me punham a "roupa da
missa", geralmente aos domingos, e diziam que eu ficava bonito,
só era feio usar chupeta. Também não gostava
de usar gorro. Eu perguntava pela chupeta, perguntavam-me pelo gorro.
"Não sei" era a resposta. Diziam: "Dá
três pulinhos e pede pra 'São Longuinho', que ele mostra".
Eu pulava mesmo, e as coisas apareciam, como forçosamente apareceriam.
Assim, se agia quando sumia alguma coisa.
O papai Noel... Esse, no começo aparecia uma vez por ano. Depois
desapareceu e eu não entendia por quê. Continuávamos
eu e meus muitos irmãos pondo na janela o sapato, mas, prevendo
que "o velho não viria", os adultos diziam: "Coloca,
meu filho. Se o Papai Noel não vier e não lhe deixar
um presente, é porque tem muita criança pobre pra atender.
Quem sabe, no ano que vem... Ou quem sabe você tá com
sorte... O que você queria de Papai Noel?" Pedia alto e
o velho não vinha ou vinha trazendo algo diverso do que pedia,
mas esperava-o para o ano que viria.
Ensinaram que as coisas sumiam porque um moleque de nome Saci era
quem as escondia para brincar ou para castigar. Tinha uma perna só,
era traquinas e vivia na floresta, mas vinha para o nosso meio sempre
que uma criança xingava, era resmungona ou desobediente, falava
"Capeta", "Diabo", "Demônio",
etc... (Eram todas razões para desaparecer coisas.) Mais grave:
"Papai do Céu não gosta", "Quem é
mau não vai pro Céu", "O inferno é
um lugar onde só tem fogo e os maus queimarão pra sempre"
Os anos foram passando, as curiosidades eram outras e fatos novos,
antes não percebidos, tinham suas explicações
peculiares. Por que o padre não namora? "Não pode,
meu filho. A mulher que namora o padre vira mula-sem-cabeça".
E esse homem meio inchado e feio, por que é assim? "Dizem
que vira lobisomem, se transforma num animal e anda de quatro patas.
Por isso as juntas de seus dedos são inchadas... Ele vira,
à noite, e desvira, de dia"
Lembro que gostava da broa assada no fogão à lenha onde
também, aproveitando as brasas, eu assava uma mandioca ou uma
batata doce. Que delícia! E as noites de São João
e de outros santos do inverno, com lua clara e céu estupendo?...
Não importava o frio, era tudo bonito. "A bênção,
dindinha Lua". Não respondia, mas pedia mesmo assim, secundando
a voz de minha avó. A fogueira ardendo, gente tirando sapatos
e meias, para atravessá-la de pés descalços (Que
heroísmo!). Ainda hoje não entendo como se dá
a coisa, não busquei explicação científica
para o fato de que os pés não se queimam. Tinha que
ser à meia-noite (hora mágica!). E a variação
de hora de relógio para relógio?... Toda hora é
relativa. A coisa ficava mesmo sem explicação, salvo
que aqueles homens possuíam muita fé.
E assim foi minha infância, adolescência, com reflexos
na idade madura. Nunca entendi muito bem todas as coisas. A fé
é artigo raro. O papai Noel, esse eu sei, me dava presente
o ano inteiro, todo dia, o tempo todo. As crianças pobres são
as que mais carecem, ainda hoje, de presentes desse "velhinho".
O céu, o inferno... (?) Na barra das saias de minha mãe
ou da minha avó sempre desenvolvi algum credo. Ruim era voltar
da "Missa do Galo", à pé, da Vila, por quatro
quilômetros (Que vontade de arriar e dormir ali mesmo no caminho!),
mas a missa era bonita. Eu me emocionava com ela, com a saga de Cristo
na Semana Santa, que era encenada no velho rádio à pilha.
Não via as cenas, mas as tinha na imaginação,
ouvia as palavras e chorava. Depois passei a usar a missa também
para paquerar. Céu e inferno tomaram novas dimensões
e conceitos. A conhecida, que, diziam, namorava o padre, nunca virou
mula-sem-cabeça. Nunca vi uma, como não vi lobisomem,
mas vi mãos, dedos e pés inchados de cachaça.
Os fatos existem, os mitos, não. Tenho uma enorme responsabilidade
de separar mitos, fatos, mostrar pontes e fontes, explicar tanta coisa,
eliminar nocividades... Tenho certeza, a própria vida, com
tudo em seu bojo, me ajudará a desincumbir da missão.
O amor norteará tudo, desde que eu me proponha a ouvir e zelar
por tudo pequeno à minha volta. Eu, também pequeno,
quem zelará por mim? Há um sopro e uma inspiração
e uma dedicação sincera. Que os anjos ajudem a cuidar
de anjos! Esses sobraram da minha infância. Penso que ainda
estou na infância...
Imagino coisas simples e esqueço-me do mirabolante. O que está
além da imaginação eu atropelo e me atropela.
Um dia terei que contar para meus meninos coisas e coisas ou não
contar nada. Mesmo que o que conte não seja conto, o silêncio
cheio de ações será uma estória exemplificativa
de cultura e momentos de uma humanidade retalhada, norteada por acidentes
e incidentes de uma vida partida, cuja via para a inteireza é
fatigável e não sei onde ou se termina.
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