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Morgana Gazel
Salvador / BA

 

Joãozinho, o sertanejo


Joãozinho era um menino curioso!... Vivia a fazer perguntas de tudo quanto é tipo a sua mãe: "Por que mandacaru tem espinho, mãe?", "A sinhora viu que barriga grande, do home que veio com o pai, aqui hoje? É verme, mãe, que ele tem na barriga?..." A mãe era paciente, mas às vezes se agastava. "Esse minino tem cada uma!... Como é que eu vou saber tanta coisa?... Não estudei nem as primeira letra", resmungava e continuava em sua labuta.
Um dia, Joãozinho, acocorado, perto de uma cerca de mandacarus, dava vazão a suas necessidades intestinais, absorto no firmamento onde, acreditava, escondia-se a casa de Deus. De repente, foi tirado de sua contemplação; porcos famintos avançavam. Ele xingou, raivoso. Esquecera de trazer um pedaço de pau, com o que defendia seu posto em momentos como esse. Foi obrigado a se levantar e correr, segurando as calças, para terminar de se aliviar em outro lugar.
Joãozinho ficou a pensar. Ele que gostava de apreciar certos caprichos da natureza - a acauã e seu canto esquisito, a limpeza do azul do céu, as estrelas a piscarem no escuro, a lua cheia a clarear a noite, o cheiro da terra ao ser molhada pelas primeiras chuvas, a cara risonha da nova professora..., ela era de uma cidade próxima, onde, diziam, vivia como uma princesa, numa casa com jardim cheio de flores perfumosas - ele que gostava de tudo isso, não se conformava com o repulsivo ato de botar fora de si aquela sujeira fétida e escura, tendo ainda de afugentar os porcos que, de tão feios e imundos, só podiam ter sido criados pelo demo. Será que a professora... a cara dela tão bonita!... a fala parecia de uma santa. Será que ela...? Não. Joãozinho não conseguia acreditar.
Ao chegar em casa, pôs-se a seguir a mãe. A mãe diante do fogão, ajeitando a lenha embaixo da panela do feijão, ele junto; a mãe a lavar os canecos do café, ele a seu lado; e, quando ela, ao pegar água no pote, deu um passo atrás, lá estava Joãozinho. Os dois quase caíram.
- Que é ocê quer ao pé de mim, minino? Num tem o que fazer não, é?
- Me desculpe, mãe. É porque quero falar com a sinhora.
- Entonce fale! E deixe eu trabaiá na paz de Deus. Cum pouco, seu pai chega pra comê.
- Mãe, sabe o que é?... a sinhora promete que num vai ficar zangada?
- Fale, menino! Vou ficar é vermeia de raiva se ocê num falar agorinha mermo.
- Mããe... sabe o que é?... Moça caga?
Assim era Joãozinho. Numa ocasião, a professora leu um trecho de um livro, cujo nome do autor ele não conseguiu memorizar. Contudo memorizou uma de suas frases, embora não a tenha compreendido: "O sertanejo é, antes de tudo, um forte". Em casa, mais uma vez, recorreu à mãe:
- Mãe, o que é tudo?
- E eu sei, Joãozinho? Tudo é tudo... quarquer coisa.
- Quarquer coisa?!... a lenha é tudo, a mesa é tudo, o vento é tudo?!
- Pare com isso, minino!. Tudo é as coisa toda junta!
- E o que é forte?
- É a gente quando trabaia muito e não se cansa de trabaiá... é também as coisa quando demora de quebrar. E pare de preguntar a mim, minino! Vá preguntar a sua profersora!
Joãozinho, que não tinha coragem de abrir a boca diante da professora, insistiu:
- Só mais uma coisica, mãe. Sertanejo... o que é?
- É a gente do sertão!
- Aqui é sertão?
- Ocê num tá vendo a caatinga seca, não? Se tem caatinga seca é sertão.
"Entonce sou sertanejo! E, antes de todas coisa junta, sertanejo é forte. Acho que é igualzinho dizer: É mais forte do que todas coisa junta", Joãozinho pensou. E concluiu, asseverando o que não mais se apartou dele: "Eu sou sertanejo, entonce sou forte."
Mesmo depois que Joãozinho se tornou João, mais tarde Seu João e arranjou mulher e filhos, continuou a crer na idéia que formulara, partindo da frase que ouvira da bela professora. Enquanto era João, trabalhou duro com o pai, sem reclamar do sol que lhe tostava a pele, transformando-o em mais um cabra do sertão. Quando já era conhecido como Seu João, sustentou os pais até os últimos dias deles, com carne seca, farinha de mandioca e feijão. Com a mulher e os filhos, fazia igual, enfrentando os rigores do clima e os dissabores da alma apegada à única terra que ele conhecia.
Chegou um tempo, porém, em que Deus quis expulsar todas as vidas daquela região. Parecia que ali nunca mais choveria. Por muitos meses, a despeito de rezas e esperanças, nenhuma gota d'água caía. Secaram-se as cacimbas; no leito dos riachos, que corriam, caudalosos em tempo de chuva, restavam apenas gretas ressequidas; os animais morriam; e os mandacarus com os galhos secos para o alto assemelhavam-se a fantasmas implorando compaixão. O sertão contorcia-se em silenciosas dores. Os homens abandonavam-no, seus semblantes sombrios revelando seu estado de alma.
Seu João, a mulher e os filhos viajaram na carroceria de um caminhão. Comiam farinha, carne seca e rapadura; feijão não sobrara. Depois de vários dias, chegaram a uma grande cidade. Ali eles ficaram.
No início, pediram esmolas, dormiram sob viaduto e se banharam em água represada. Mas Seu João sabia que, sendo sertanejo, antes de tudo era forte. Portanto jamais desistiria. Oferecia-se a todo tipo de trabalho. No entanto, desconhecido e sem referência, ninguém o contratava. Fazia um mês, quando uma pessoa de bom coração o admitiu numa obra como ajudante de pedreiro e lhe permitiu acomodar-se num velho depósito. Seu João e a família mudaram-se do cantinho sob o viaduto para um lugar com teto de verdade. Foi um dia de muita alegria.
Passaram-se os anos. Durante esse tempo, Seu João ouvia uma voz dentro de si: "Vou voltar pro meu sertão. Sou sertanejo. Um dia vou voltar." Os filhos estudaram, cresceram e se estabeleceram; cada um, num bairro daquela cidade. Seu João e a esposa envelheceram, a voz, contudo, continuou. Numa manhã ao acordar, como se tivesse sido chamado, voltou-se para a luz do sol que invadia o quarto, através das frestas da janela. Viu uma acauã a espiá-lo em meio ao fulgor dos raios. E sentiu o corpo esmorecer. Foi então que Joãozinho se libertou, saltou no dorso da ave e voou, feliz, para o sertão.

 
Contos "Além da Imaginação"- Março / 2010