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Adriano
Bassetto |
| Adriano
Bassetto nasceu em Olímpia/SP em 01 de maio de 1978, é
olimpiense de nascimento, paranaense por adoção e tem
o coração em terras paulistanas. É engenheiro
mecânico formado pela Unicamp em 2004 e, estudante de letras
pela Universidade Estadual de Maringá, cidade onde vive atualmente.
Gosta de escrever contos que, para ele, é o mesmo que colocar
para fora aquilo que está guardado no mais profundo de seu
coração, num baú de eternas recordações.
Publica-os em sua página pessoal www.adrianobassetto.com,
e também em diversas antologias da CBJE. |
| PUBLICAÇÕES |
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Antologia de Contos Fantásticos - Edição 2006
A Lua de Vênus Ela caminhou lentamente até a sacada e olhou mais uma vez para o céu limpo e estrelado, sentindo o luar tocar suavemente o rosto. A lua cheia, enorme, reinando absoluta sobre a cidade iluminada, parecia-lhe diferente, como se não fosse a mesma que tantas outras vezes contemplou. De fato não era. Lembrou-se que era a primeira lua cheia regida por Vênus sob seu signo, Libra. Uma noite única no ano, a mais romântica de todas e repleta de magia. “Os mais secretos desejos do amor podem se realizar nessa noite” murmurou, lembrando-se e repetindo as palavras de seu amado. Sorriu, cerrando os olhos e deixando a cabeça tombar levemente para trás, como se embriagando com o luar prateado que lhe banhava o corpo. Uma brisa fez o corpo se arrepiar e, ao contrário do que esperava, uma onda de calor lhe invadiu. A respiração acelerou na medida em que seu coração disparava. Com leve tremor nas mãos, tirou a camiseta, ficando seminua. Um arrepio lhe percorreu a espinha ao toque do vento no peito nu. Numa deliciosa mistura de sensações, o calor começava a dar lugar ao frio. Uma leve fisgada nas costas provocou-lhe um breve gemido. Sentia as costas se abrindo, como se rasgassem para dar passagem a algo. Não havia dor, apenas um leve estado de torpor. Aos poucos um enorme par de asas surgia, tão grande quanto seu próprio corpo. Respirou fundo, mexendo levemente as asas. Acariciando-as, sentiu a suavidade e maciez das penas, todas completamente brancas. Os olhos brilharam, acompanhados de um doce sorriso. Cerrou os olhos e, sem perceber o movimento que empregava às asas, sentiu o corpo flutuar e, como um anjo, ganhar o céu. O vento de encontro ao rosto e ao peito nu não lhe incomodava, era como uma carícia. Já não sentia frio, mas um conforto que jamais experimentara antes. Voava cada vez mais alto e em círculos, como uma grande espiral no ar, em direção à lua prateada. Às vezes abria os braços, como querendo abraçar a noite que lhe acolhia. Parou por um instante, flutuando em pleno ar e fitando as luzes da grande cidade. Os imponentes prédios agora pareciam tão pequenos, não conseguia mais identificar as ruas secundárias, o largo rio que cortava a cidade se transformara apenas num estreito risco, como se fosse apenas um pedaço de fio jogado ao chão. Riu, girando e dançando em pleno ar, ao perceber que não mais tinha medo de altura. Não sabia explicar, mas não encontrou também os outros medos que tanto lhe angustiavam. A cidade lhe parecia inofensiva, como se fosse apenas um brinquedo de criança ou simplesmente um amontoado de concreto. Sentia o corpo leve e respirava com tanta facilidade, que chegou a inspirar fundo, para ter a certeza de que o ar ainda existia e lhe preenchia os pulmões. Uma paz enorme lhe invadia a alma e o coração, acompanhada de uma sensação de liberdade que há tanto tempo desejava. Não mais tinha dúvidas de que o futuro agora era certo. Contemplou a lua, as estrelas e depois o horizonte ao sul. Um sentimento de saudade e de certeza lhe tomou o coração e, num único impulso, passou a voar com incrível velocidade, como uma flecha branca cortando o céu. Rapidamente as luzes da cidade ficaram para trás e a noite passou a ser iluminada apenas pelas estrelas e o luar. A cada instante ela ganhava mais velocidade, passando como uma flecha por árvores, morros, rios, cidades. O vento lhe esvoaçava os cabelos e a única coisa que conseguia lhe acompanhar o vôo, era a lua cheia. Sobrevoou uma grande extensão de planície e sorriu ao avistar no horizonte uma elevada montanha, imponente e solitária na paisagem plana. Em poucos segundos pousava suavemente sobre uma pedra em seu cume. A lua, enorme, parecia tão próxima que pensou que pudesse tocá-la e acariciá-la, se apenas esticasse o braço. Cerrou os olhos por alguns segundos, sentindo o luar lhe envolver e embriagar. Novamente veio o sentimento de saudade e o coração acelerou, colocando-a em alerta. Fitou o horizonte na direção do caminho em que seguia há pouco, onde agora um ponto claro movia-se rapidamente, confundindo-se com as estrelas. Aos poucos ia se aproximando e seu tamanho aumentando, até passar como um raio sobre o cume, esvoaçando-lhe os cabelos e deixando um perfume suave no ar. Girava o corpo, acompanhando com o olhar o par de asas prateadas que contornava o céu e voltava em sua direção, fazendo círculos cada vez menores à sua volta, até pousar suavemente à sua frente. Ela contemplou o amado, sorrindo docemente. Seus olhos se fitaram por um longo tempo, até que ele se aproximou e a abraçou, envolvendo-a com suas enormes asas. Os lábios se tocaram, num beijo terno e demorado. Ele lhe afagou os cabelos, enquanto ela escondia o rosto em seu peito. O vento cessou e o tempo parecia ter parado. A lua, que antes protegia o vôo de ambos, agora abençoava o encontro, banhando seus corações com paz e felicidade. “Os mais secretos desejos...” sussurrou ele. Ela abriu os olhos lentamente, não se assustando com os olhos felinos que lhe fitavam, curiosos e doces. A gata se levantou e veio lhe tocar o rosto com o focinho, miando baixinho. Um raio de sol entrava pela fresta da janela, denunciando um domingo ensolarado e de céu limpo. Espreguiçou-se, uma sensação deliciosa lhe invadia o corpo. “Que sonho delicioso, bebê” murmurou afagando o dorso da gata, que tentava agora se aninhar sobre seu corpo. “Não, deixe a mamãe dormir mais um pouquinho”. Afastou a gata e virou-se de lado, sentindo algo lhe incomodar as costas. Passou levemente a mão e ralhou com ela, “Você arranhou as costas da mamãe...”. Ouviu um miado baixo e logo passou a se lembrar do sonho. Sentia uma paz e uma ternura enorme no coração. Sorriu, pensando em como o sonho lhe parecera real. Logo o sono voltou com força e adormeceu, ouvindo ao longe o som da gata, que corria pelo quarto, brincando, carregando na boca algo que encontrara sobre o colchão. Uma reluzente e macia pena prateada. (Baseado em fatos reais, desde que se tenha sensibilidade suficiente de sonhar e acreditar que na magia do amor tudo se torna possível.) --- Antologia de Contos de Autores Contemporâneos - vol.17
Suco de laranja
Saúde, trabalho. Pensou que a vida poderia ser mais generosa com ele. Olhou para o garçom ainda ali parado, imponente, bem apresentável, às vezes com um certo ar de mistério na face. Tinha sempre um sorriso maroto, como se a qualquer momento fosse lhe aprontar alguma brincadeira.
--- Antologia de Contos de Autores Contemporâneos - vol.18
Afogado As pernas estavam pesadas e os braços doíam, numa inútil tentativa de se manter flutuando. Não via outra coisa à sua volta a não ser água, um mundo inteiro de água e, por mais que se esforçasse para se lembrar, não conseguia sequer ter uma vaga idéia de como fora parar ali.
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