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Larissa
Nascimento Sátiro |
Antologia
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Feira de Santana / BA Repúdio
Pela primeira vez na vida eu senti um vazio como o do éter que circundava o universo na filosofia de alguém que passou. Era como se eu não estivesse nem quisesse estar. Como um meio sentido, absurdo, sem sentido... Como na tentativa de descobrir algo que já se sabe ser um novo filme antigo. Eu me vi ali, tentando fazer o meu melhor impossível. Passaram-se manhãs e tardes de céu azul cor de manteiga embrulhado em papel de pão e barbante. Não era eu, porque eu não podia estar ali. Eu ouvia o retinir da água jorrando aos cântaros em meio àquele silêncio sem nexo noite adentro. Mas sem sentir o que se dava a mim por causa do que se escondia entre as frestas daquelas réstias de luz. Eu precisava de um foco de escuridão ali para poder enxergar o que não reluzia tanto. O que se escondia na parte mais incidental da minha alma, cheia de recortes novos e antigos que eu nem reconhecia mais. E em meio a essa insanidade ansiosa por viver a impagável sensação de se sentir vivo, ainda que por um instante, num lapso de tempo, eu tentei trocar essa ilusão por um pouco mais de realidade. Ah! Se eu estivesse incluída nesses planos... Agora me encontro aqui e ali, em todo lugar e em lugar nenhum, presa numa campânula que reverbera minha respiração. E mesmo daqui, o Senhor do Bonfim pode ouvir, e já me vira os olhos. E quando eles me fitarem, o possível já não será o bastante. Eu temo o não que vou dizer ao dizer sim. Eu temo ter que ir até o fim, sem saber em que parte do futuro ele vai dar. Se é que há futuro, se é que não há... Eu não queria querer tanto esse novo que me fascina. Mas sempre foi assim. Eu nunca tive medo do novo, sempre me deixei fascinar por ele. Por isso eu não paro nunca de sentir esse remorso em ter que abandonar o antigo por uma nova chance nessa loteria na qual eu resolvi arriscar. E em repúdio a tão grande desapego, eu tento segurar essa água que me escorre pelas mãos, junto com o tempo. Porque eu já não posso voltar. E na rota de escape, não há salvação. |
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Publicado
na Antologia de Contos Amor & Desamor - Abril / 2010 |