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Vera Celms
Antologia on line

São Paulo / SP

Medo lá de fora

 

A chuva lá fora, caía desesperada.
O vento grasnava, enquanto se cortava por entre as folhas assustadas das palmeiras, que assistiam a tudo impassíveis.
La dentro, Lucas era o único morador em muitos quilômetros. Sobre o telhado, a chuva se espatifava sem dó. O barulho, era de uma hecatombe, e o incessante som da água correndo nas calhas acabava em goteiras pelas placas de flandres que cobriam os viveiros.
Raios, trovões, clarões assustadores, sombras trazidas pela imaginação, pelas silhuetas formadas pela natureza sempre tão silenciosa e mansa, transformavam aquela paisagem, vista pela janela, num espetáculo dantesco...
A luz de dentro de casa estava apagada por segurança, com medo de descargas elétricas. A única luz que permaneceu acesa foi a do canto da casa, do lado de fora, por esquecimento e por onde, pelo embaçamento dos vidros se formavam arcos de luz deformados, ganhando a imaginação de Lucas, que procurava, sem sucesso, não pensar em nada.
Há tanto tempo não chovia tanto naquelas paragens. Os animais se escondiam da chuva como podiam e a água corria insana pelo terreiro. O que se via pela janela era a plantação deitando no chão e os canteiros se confundindo com os rios que se formavam entre eles.
Lucas estava aflito não só com o medo que era imenso, mas com a perda que essa tempestade toda ocasionaria no seu trabalho.
Aos poucos seu pensamento foi se perdendo na sua própria vida. A esposa recém-falecida, seus pais tão distantes, seu irmão que partira sem nem ao menos se despedir depois da briga.
Cruel, Lucas sentia que a vida estava sendo cruel demais com ele. Talvez tivesse sido melhor que ele tivesse morrido com sua esposa naquele acidente quase inexplicável. Hoje, cocho, com sérias sequelas, sozinho, o filho perdido ainda no ventre de sua esposa.
Solidão, só solidão... dura, triste, esmagadora. Não tinha como voltar para a casa de seus pais e perder tudo o que construíra a duras penas antes da morte de Lisete.
Agora era tocar a vida, quem sabe encontrar outra esposa, quem sabe trazer seu irmão de volta, fazer as pazes... trazer seus pais para viverem com ele. Nesse momento, tudo passava de uma só vez em sua cabeça tão confusa.
Um raio forte como o quê, o acordou de seus devaneios tão profundos e acabou retornando a realidade de seu medo desmedido daquela tempestade maldita.
Pensava na criação, na plantação... no estrago, no prejuízo...
O desespero o assolava cada vez mais... num crescente sem fim... Lucas era moço ainda, 30 anos, mas às vezes sentia como se tivesse 70, tamanho o seu desolamento.
Era triste viver só... era cruel... aquilo foi tomando conta de sua razão e se transformando em revolta e finalmente em raiva. Sentia aquilo corar seu rosto, sentia-se injustiçado pelo destino, por Deus.
- Deus, por que permite que isso aconteça comigo? Me esqueceu aqui sozinho nesse mundão? Quanto tempo espera que eu agüente essa situação calado? Vou destruir tudo isso aqui, vou mandar as favas todo o negócio e o que já trabalhei aqui e vou voltar para a casa dos meus velhos. Lá eles devem precisar mais de mim...
Resolveu ligar o rádio, ainda que o medo fosse maior do que estivesse suportando. E pra seu desespero ainda maior, ouvia que a cidade de Mato Dentro estava sendo assolada também pela tempestade e que já haviam mortos.
- Meu Deus, perdoe... perdoe tudo o que disse. Esquece Senhor, prometo que se meus pais estiverem bem, vou tentar trazê-los pra morar comigo... eles estão velhinhos e não podem mais tocar a fazenda por lá... permite Senhor que eles estejam bem!
Sem conseguir parar de chorar, ouvia estarrecido as notícias desoladoras que a rádio transmitia e nem notava que a chuva lá fora diminuíra consideravelmente.
Agora o sentimento era de tristeza e de incerteza. Seus pais? E seu irmão, onde andará? Será que meu Senhor resolveu tirar todos de mim de uma só vez?
O descontrole foi tomando conta, o choro compulsivo foi evoluindo, até que de cansaço acabou por adormecer.
Sonhou com a água carregando terra pra todo lado, deslizamentos, desmoronamentos, mortos. Não via rostos, não sabia de identidades, mas todos de repente pareciam ter o rosto dos seus.
Dentro daquele sufoco, daquele desespero, dormiu até o amanhecer, agitado, nervoso... farto da solidão, das incertezas.
Levantou-se bem cedo e ao abrir a porta deu com toda a plantação dizimada, animais mortos pelo pasto. Cercas derrubadas pela fúria dos ventos, por sobre os viveiros e galinheiros. O chiqueiro estava em escombros e os animais lá dentro mortos.
Era um ambiente desolador.
O desespero tinha se tornando incontrolável...
Sentou-se ao pé de uma arvore, com a cabeça entre as mãos, querendo noticias de seus pais e irmão, quando de repente ao longe, viu um cavalo surgindo, com um homem que não reconheceu a distancia.
Esperou inquieto que aquele homem se aproximasse. Quando chegou bem perto, reconheceu seu irmão com a fisionomia bastante abatida, mas se alegrou em revê-lo.
Thiago apeou do cavalo com uma calma quase soturna e chorando. Lucas imaginou imediatamente que as notícias que chegavam não eram das melhores.
Aguardou o irmão se aproximar, levantou-se cauteloso. Pra sua surpresa foi recebido pelo irmão com um abraço acolhedor, longo e não menos desesperado.
Thiago respirou fundo, pediu para o irmão um copo d'áagua, um café, alguma coisa que o permitisse respirar e logo então, vendo o desespero de Lucas, passou a descrever o ocorrido.
- Lucas, meu irmão, as notícias não são boas... a tempestade acabou com tudo, o Pai e a Mãe estão desaparecidos depois da chuva. A casa deles e de mais alguns colonos foi levada pela chuva e são muitos os desaparecidos, na verdade são uns 150, entre adultos e crianças. A criação foi dizimada, a plantação não existe mais.
Entre os desaparecidos, estão minha esposa e dois filhos pequeninos. Preciso que venha comigo. Preciso que me ajude a encontrar a todos, quem sabe alguém com vida ainda.
Deixei tudo lá e vim correndo. Primeiro te peço perdão por tudo o que aconteceu.
- Eu também Thiago, te peço perdão por tudo o que aconteceu. Pensei que nunca mais fosse te ver, afinal são 6 anos sem notícias suas. Nem sabia que morava para aquelas bandas. Nem sabia que tinha casado e muito menos que tinha filhos.
Agora é hora do perdão absoluto, de fazer as pazes e unir forças para encontrar a todos, se Deus permitir, e recomeçar daqui, se realmente tudo por lá foi destruído como disse.

E seguiram viagem, cada um em seu cavalo, com mantimentos suficientes para algum tempo, cordas, arreios, um cavalo extra como tração, e toda a fé que Deus permitiu que reunissem.
Lucas fechou o que tinha, deixou os animais que sobreviveram com um vizinho conhecido e partiu para localizar a família.
Dias depois localizaram os corpos de seus pais, soterrados pelo desmoronamento. Logo em seguida os corpos de sua cunhada e da filha de 5 aninhos.
Pra um pouco de felicidade, o menino fora encontrado com vida, porém bastante debilitado.
Sepultaram seus mortos, os dois irmãos e o menino e voltaram para as terras de Lucas a fim de recomeçar a vida, a partir dos escombros restantes.
Agora eram três homens, sozinhos, porém unidos. Lucas e Thiago ficaram muito abatidos, desesperançosos, mas entenderam que a única forma de continuar vivendo era lutar, para reconstruir e criar o menino que com 4 aninhos, não tinha exata noção ainda da catástrofe que assolou a família.
Alguns meses depois Thiago também faleceu, acometido de complicações de pulmão. Agora era Lucas, o pai do sobrinho e o restante de tantos idos. Pedindo a Deus que o ajude, a sobreviver, a lutar, a reconstruir e a ensinar ao sobrinho que a vida é boa... apesar dos pesares...
Tudo começou com uma tempestade que caía desesperada lá fora, do vento que grasnava, se cortando entre as folhas de palmeiras, de todas as imagens fictícias ou não que formaram todo o medo que paralisou Lucas. Que nunca mais teve medo de tempestades...

 

 
Publicado na Antologia de Contos Amor & Desamor - Abril / 2010