França, região de Provence, 1270.
Esse
desafiou o marido de sua amada para um duelo. De escudo, lanças
e espada nas mãos, os dois se atiraram ao combate. Uma luta
árdua, primeiramente eles deixaram a espada na cintura e
lutaram com a defesa do escudo e atacando com suas lanças.
Porém, em dado momento do combate as lanças se bateram
violentamente uma na outra e acabaram se quebrando.
O velho René então puxou sua espada da cintura e precipitou-se
com toda sua fúria para cima de seu oponente, que também
empunhou sua espada e o enfrentou.
A luta, então, continuou equilibrada, porém, difícil
para ambos, pois se por um lado René havia sido outrora um
grande guerreiro, e mantinha ainda imensa sabedoria e habilidade
no combate, por outro, seu oponente era mais jovem e seu físico
lhe dava grande vantagem.
A luta continuou por mais algum tempo, e aqueles que assistiam ao
combate achavam que ninguém venceria, que eles acabariam
por cair de cansaço. Porém, um pequeno fato mudou
o rumo do duelo. Em meio à batalha um vento soprou forte
e carregou areia do chão e a jogou nos olhos de René.
Esse teve a visão danificada e foi derrubado covardemente
por seu inimigo, que vendo o acontecido, se aproveitou da situação.
Após derrubá-lo, disse:
- Eu acabarei contigo de uma vez por todas, velho tolo e imbecil.
Tomei-te a mulher outrora, e agora te tirarei também a vida!
Ao ouvir essas palavras, o velho René Comte ardeu em cólera
e levantou-se rapidamente. Por conta dessa fúria, deixou
de sentir o peso da velhice e se sentiu como nos tempos de juventude,
quando era um grande e valoroso guerreiro. Assim ele se precipitou
com toda a sua cólera para cima de seu oponente, que vendo
a morte estampada nos olhos de seu atacante, começou a recuar.
Porém, esse recuo não pode lhe salvar, e René
acabou por cravar a espada no peito do homem, que caiu de joelhos
com a boca cheia de sangue.
- Tu foste um homem sem honra e sem coração em toda
a tua vida, - disse o velho René Comte - pois roubaste a
mulher alheia por pura ambição. Agora que estou velho,
aceitou meu desafio achando que seria fácil matar-me. E te
aproveitaste do vento para me colocar covardemente ao chão.
Pois bem, agora eu terei minha vingança, recuperarei minha
mulher amada e te tirarei a vida.
Após dizer isso, René puxou sua espada do peito de
seu inimigo e lhe arrancou a cabeça com um só golpe,
e depois jogou o corpo e a cabeça para a sanha dos cães.
Passados alguns dias, René Comte conseguiu se casar com sua
amada, e eles viveram juntos durante dez dias, em total harmonia
e felicidade. Esses nunca foram tão felizes em suas vidas
como naquele curto período. Ficavam todo tempo juntos, e
não se desgrudavam por nem um instante. Porém, o destino
veio novamente pregar-lhes uma peça. No décimo primeiro
dia de casados, ele estava sentado na poltrona da belíssima
residência que havia adquirido na Vila de Rhône. Sua
mulher veio, então, lhe trazer uma taça de vinho e
deixou o líquido derramar no chão, onde escorregou
e caiu batendo a cabeça na quina de uma mesa.
O velho René viu toda aquela cena e ficou chocado; correu
em socorro de sua amada. Mas era tarde demais, seu destino estava
traçado. E deitada em seus braços ela disse:
- Todo tempo que esperei para viver ao teu lado valeu a pena, pois
tu me deste a melhor época de minha vida. Eu te amo mais
que tudo, e faria tudo de novo para ficar ao teu lado. Eu te espero
no céu para ficarmos juntos pelo resto da eternidade.
- Não meu amor, - disse René desesperado - não
me abandones, pois não posso viver sem ti!
Era tarde demais. Por um ímpio lance do destino, aqueles
que esperaram a vida toda para ficarem juntos estavam agora separados
pela intransponível barreira da morte. O velho René
Comte então, vendo sua amada, morta em seus braços,
gritou - "Não!". - e a deixou no chão e
saiu correndo pelas ruas. Correu sem parar, saiu da Vila de Rhône
e pulou de um penhasco sem hesitar por nem um instante.
O funeral dos dois aconteceu de forma triste, mas também
foi o rito fúnebre mais belo e emocionante que até
hoje se ouviu falar por essas paragens. Todos se emocionaram ao
conhecer a história deles. E ambos foram sepultados, um ao
lado do outro, para ficarem juntos na morte por toda a eternidade,
conforme era o desejo não realizado deles em vida. E em seus
epitáfios estavam escrito:
"Amou
e o esperou por toda a vida, e morreu em seus braços".
"Amou
e a esperou por toda vida, morreu ao perdê-la em seus braços".